para um bom leitor

...escrever é sempre um ato de existência.Quando se escreve conta-se o que é...A história é mais real do que qualquer explicação.A realidade do que sou está mais no que escrevo do que nas racionalizações que possa fazer. (Ruth Rocha)

sábado, 5 de junho de 2010

Meu amigo: o capoeira

O capoeira que eu imagino é aquele que faz de cada presença na roda a sua promessa de pernada posterior.Ele sempre termina o treino ou jogo com o sentimento de recomeço. Às vezes a roda teima ser uma indagação, a menos que ela ( a roda) suplante as tensões e atenções por aquilo que não se espera, aquilo que a capoeira tem de mais rico: a surpresa.
O capoeira que eu imagino é aquele que por mais adversa que seja uma roda, um jogo ou um momento, a capoeira impõe no bom sentido uma atenção e um interesse especial, pois para esse capoeira a vida seria menos do que ela é, sem  a capoeira. Ele quer ser a roda, e no seu bojo dizer sobretudo o que não quis dizer; e fazer da ginga ao menos parte do seu modo de ser.
O capoeira que eu imagino joga nas situações mais conhecidas por ele sempre com os olhos da primeira vez. A medida que joga perto do outro ele amplia, alarga, expande seu ego e ganha mais espaço para acolher e hospedar mais gente dentro dele e igualmente se tornar cada vez mais solidário, depois de cada jogo brincado.
O capoeira que eu imagino precede e pressupõe a história do capoeira antes de jogar. Ele nunca teve ou terá um mestre predileto- ele pode sim ter a predileção por um único mestre.Eventualmente ou por necessidade de sobrevivência, busca o conhecimento utilitário dos livros, mas em tempo algum abre mão da prática e presença na roda como uma das experiências mais felizes.
Para este capoeira que eu imagino existe um livro escrito especialmente para ele, igual a um amor predestinado, ainda que este encontro viva somente no imaginário de quem lê ( ou joga) como quem ama e ama como quem lê...joga!
O capoeira que eu imagino é o personagem principal da história mais incrível que alguém jamais escreveu. E a capoeira em algum ponto limiar em que viver é uma promessa, ela existe para fazer viver mais, ao menos um pouco mais ou eternamente, o que é matéria viva e não pode nunca morrer.
O capoeira que eu imagino vive dentro de nós!
                                       (baseado na prosa de Jorge Miguel Marinho)

Um comentário:

  1. Não vim de Angola ê
    Nem vim da Africa a
    Não tenho pele escura
    Nem aprendi a jogar na rua
    Mas minh'alma foi chamada pra Roda
    Meu coração bateu forte ao som do Atabaque
    Descobri minha voz ao Berimbau
    Aprendi a gingar
    Apesar de achar que
    Alma, Coração e Voz já sabiam:
    A Capoeira,
    de alguma maneira,
    aqui dentro,
    já vivia.

    Jaguatirica

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