O capoeira que eu imagino é aquele que faz de cada presença na roda a sua promessa de pernada posterior.Ele sempre termina o treino ou jogo com o sentimento de recomeço. Às vezes a roda teima ser uma indagação, a menos que ela ( a roda) suplante as tensões e atenções por aquilo que não se espera, aquilo que a capoeira tem de mais rico: a surpresa.
O capoeira que eu imagino é aquele que por mais adversa que seja uma roda, um jogo ou um momento, a capoeira impõe no bom sentido uma atenção e um interesse especial, pois para esse capoeira a vida seria menos do que ela é, sem a capoeira. Ele quer ser a roda, e no seu bojo dizer sobretudo o que não quis dizer; e fazer da ginga ao menos parte do seu modo de ser.
O capoeira que eu imagino joga nas situações mais conhecidas por ele sempre com os olhos da primeira vez. A medida que joga perto do outro ele amplia, alarga, expande seu ego e ganha mais espaço para acolher e hospedar mais gente dentro dele e igualmente se tornar cada vez mais solidário, depois de cada jogo brincado.
O capoeira que eu imagino precede e pressupõe a história do capoeira antes de jogar. Ele nunca teve ou terá um mestre predileto- ele pode sim ter a predileção por um único mestre.Eventualmente ou por necessidade de sobrevivência, busca o conhecimento utilitário dos livros, mas em tempo algum abre mão da prática e presença na roda como uma das experiências mais felizes.
Para este capoeira que eu imagino existe um livro escrito especialmente para ele, igual a um amor predestinado, ainda que este encontro viva somente no imaginário de quem lê ( ou joga) como quem ama e ama como quem lê...joga!
O capoeira que eu imagino é o personagem principal da história mais incrível que alguém jamais escreveu. E a capoeira em algum ponto limiar em que viver é uma promessa, ela existe para fazer viver mais, ao menos um pouco mais ou eternamente, o que é matéria viva e não pode nunca morrer.
O capoeira que eu imagino vive dentro de nós!
(baseado na prosa de Jorge Miguel Marinho)
Não vim de Angola ê
ResponderExcluirNem vim da Africa a
Não tenho pele escura
Nem aprendi a jogar na rua
Mas minh'alma foi chamada pra Roda
Meu coração bateu forte ao som do Atabaque
Descobri minha voz ao Berimbau
Aprendi a gingar
Apesar de achar que
Alma, Coração e Voz já sabiam:
A Capoeira,
de alguma maneira,
aqui dentro,
já vivia.
Jaguatirica