para um bom leitor

...escrever é sempre um ato de existência.Quando se escreve conta-se o que é...A história é mais real do que qualquer explicação.A realidade do que sou está mais no que escrevo do que nas racionalizações que possa fazer. (Ruth Rocha)

sábado, 30 de abril de 2011

Roda de rua: "ser político"

Pode-se dizer,mesmo, que  na posição de capoeiristas da antiga e nova geração,nos descobrimos "ser políticos". Compreendemos a significação coletiva de nossos atos, e temos consciência de que, através deles, podemos modificar a realidade social, vale dizer, a nossa situação no mundo. Para tornar mais claro o que afirmo, estabeleço um paralelo entre a redescoberta hoje que fazemos na "roda de rua". O contexto dessas rodas a céu aberto, localizados em lugares específicos da cidade promoveu intensa transformação desde os anos noventa até agora: correrias, estranhamento, divulgação até chegar em uma relação dialética entre os " sobreviventes" daquela época até agora. Realmente os tempos são outros. Naquele tempo fazia capoeira pela auto-afirmação individual e coletiva, era a lei do mais forte. Mas a vontade de pensar uma capoeira que soma e agrega já tinha seus fluídos, estava na mão de poucos porém bons articuladores que não sucumbiram ao pior comportamento capoeirístico. A partir disso, a vontade pensar por conta própria de alguns mestres não encontrava incentivo nas  rodas: aquela pancadaria que acontecia não ia chegar a lugar nenhum.Muitos desistiram ou não existem mais para contar a história. Aos sobreviventes restou o movimento, a dinâmica, as possibilidades que a capoeira apresenta atualmente. É hora de captar outra imagem da arte, a capoeira é uma realidade geográfica, étnica, lendária. E no fazer e ser político, tão natural para o capoeira no seu dia-dia, torna-se claro o fenômeno cultural que faz o mundo gingar; os capoeiristas do mundo cotemporâneo fazem  consideráveis  transformações. E é claro que não se afirmará que só tem função social a roda que contiver formulação política explícita. A capoeira é complexa e dinâmica para que possa se sustentar somente em uma perspectiva. Os críticos aceitam a participação política do capoeira, na verdade ele o é,no entanto temem naturalmente o sobrepor em termos absolutos o problema ideológico, partidário. Especificamente a roda de rua é engajada politicamente, o que não é mais que a expressão de ponto de vista  do seu entorno por ventura justo. O capoeira reflete e atua na sua realidade. Se, entendemos a capoeira como um dos vários campos em que se formulam e exprimem as experiências humanas em toda a sua amplitude, aberto portanto à realidade dos fatos e dos problemas dos homens,então teremos mais  facilidade em compreender os próprios fenômenos:  culturais, sociais e políticos.

domingo, 24 de abril de 2011

CHIN: a garota feliz do pinhal

E bem aí,derramando sonhos até pelos poros, bem aí você chegou. Bem quando aqui fora a humanidade é crescente conto ter sido aí sua chegada: uma pessoa que vê uma ilha de margaridas ao meio do  asfalto, ou assiste ao pôr-do-sol derreter-se em música. A nossa Chinchila faz a vida preencher, envolve aos que estão a sua volta com ternura e amorosidade. Ela inventa enormes construções cheias de vidro, luzes e cores. Para a Chin, a roda de capoeira suaviza a existência, pois o sabor das cantigas e vivências ameniza o gosto ruim trazido muitas vezes...lá de fora (o mundo não está nada fácil). Mesmo assim, cada encontro abre uma página em branco,e dá mais um passo para a beira de uma história. Hoje, a passagem de seus anos é uma nova página de sua vida. Nesse momento em que escrevo, minha memória engatinha no sentido amplo dos detalhes,e basta o pinhal, o berimbau ou seus primeiros momentos na roda de capoeira para desdobrar-se toda uma história. Tenho como referência seu sorriso e na  crônica do tempo a vida segue de nosso ajuntamento na capoeira com o apoio de sua linda família. O que sucede, o que passa, tudo vai além da  funcionalidade da roda: existe e sempre existirá a comunhão de sentimentos. Às vezes conto a não-presença, jamais a sua distância; essencialmente está sempre por perto. Quando tocas o berimbau, somos tomados por um sentir, e, se igualmente somos, como declara a capoeira, fundimo-nos essenciamente...Feliz Aniversário!!

sexta-feira, 22 de abril de 2011

mais um pouquinho...vai!!

LEEEEEER...que tal?

Capoeira: educação não-formal

Segundo Gohn (2006), educação não-formal é " aquela que se aprende "no mundo da vida", via os processos de compartilhamento de experiências, principalmente em espaços e ações coletivas cotidianas". Tomemos como exemplo a capoeira. Mas afinal quem é o educador desse campo que estamos tratando? Na educação não-formal o grande educador é o "outro", aquele com quem interagimos,( mesmo sabendo que já existem instituições formais para o ensino da capoeira). Os espaços educativos na educação não-formal no caso da capoeira localizam-se em territórios que acompanham as trajetórias de vida de grupos e seus indivíduos. Distante de ambientes normatizados, com regra e padrões de comportamento, a capoeira se destaca pela sua intencionalidade, ou seja , está no ato de aprender, participar e de transmitir ou trocar saberes. Como se educa nesse contexto? Cada grupo tem sua história e fundamento, neste sentido a interação é construída coletivamente e a participação dos indivíduos é optativa. A finalidade desse tipo de educação é capacitar os indivíduos a se tornarem cidadãos do mundo, no mundo. Portanto, os objetivos não são dados a priori, pois é na construção mútua que se gera o processo educativo. A capoeira educa para a civilidade baseado em princípios de igualdade e justiça social. Desta forma fortalece o exercício da cidadania em suas interações promovidas nas rodas de reflexão e práticas contextualizadas. Um dos principais  atributos dessa modalidade educativa é desenvolver laços de pertencimento; porém trabalha e forma a cultura política de um grupo. Atualmente a construção de identidade coletiva tem sido o destaque  no mundo da capoeira, este "jeito de ser"  promove o capital social do grupo, pois fundamenta-se na solidariedade e interesses comuns. O resultado da educação dita não-formal apresentada pela capoeira está em formar indivíduos para a vida e suas adversidades e não apenas para entrar no mercado de trabalho; está presente em programas com crianças e jovens adolescentes que resgata o sentimento de valorização de si próprio. O método nasce da problematização da vida cotidiana através das cantigas e práticas sociais inseridas na roda de capoeira. Os temas surgem como necessidades, carências, desafios, obstáculos ou ações a serem realizadas. É importante dizer que em hipótese alguma ela substitui ou compete com a educação formal (escola); pode sim articular escola e comunidade via programações específicas.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O som que vem de dentro.

 Existem vozes que ainda clamam pelo sentido humano de cada um de nós, motivando e iluminando os capoeiristas com a melhor palavra de Deus. O que se pode desejar mais de um professor de capoeira como eu que tem as alunas Tica e Chinchila sob o signo da palavra amorosamente trabalhada e cantada? O caso é que "essas alunas" são inexplicáveis. Nelas está o fruto mais doce produzido pela natureza e a pegada mais forte que um capoeira pode levar, ou seja, elas  estão além do que se vê!...E quando tomam o berimbau sob seu comando  e entoam as cantigas mais significativas para a roda, provocam uma legião de admiradores e não poucos olhos de recusa e até de rejeição (a inveja é coisa séria!). Prefiro pensar que a voz e as cantigas da Tica e da Chinchila é uma eterna promessa de luz; há nesse gesto prazer e necessidade, uma comunhão de sentimentos que vêm à tona para  além da roda. O som que vem de dentro é também um som que vem da paciência, e elas, mais do que ninguém sabem o peso que o ato de esperançar (como diria Paulo Freire) nunca deve ser um  ato de "esperar", foram e estão sempre em busca de...esperançar! A verdade é que seus movimentos estão aquém dos limites de asfalto e céu de cal planejados pelo homem. As coisas sensivelmente humanas estão a todo momento sendo percutidas ao som de suas vozes e assim duas porções irmãs que nunca se separam vão sendo preenchidas: vida e obra. Eu, fico de soslaio a admirá-las; vocês me tem diagonal.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Entre as estrelas.

Lá se foi. Já não está mais entre nós. A capoeira perde mais um do seus representantes da essência da capoeira Angola: Mestre Bigodinho. O mundo da capoeira fez grandes mestres da vida e do jogo em si; tanta sabedoria e destreza da roda mostrou ao  mundo grandes pessoas que serão sempre referência no jogo da capoeira. Assim como Mestre Bigodinho, tantos outros têm a bagagem e o conhecimento que a vida lhes apresentou através de um tempo que permanece em nosso imaginário e que são sustentados pelos contos e causos desses grandiosos mestres. Infelizmente, alguns estão beirando aos oitenta anos de idade e não tem uma ajuda financeira ou seguridade social por parte do Estado; não tem seu conhecimento valorizado e até são vítimas de charlatões da capoeira. Ainda persiste um descaso com os "velhos mestres", eles estão à margem do intenso mundo da capoeira que se apresenta: a capoeira passa por um bom momento de valorização e reconhecimento no Brasil e no mundo. É preciso fazer o resgate histórico e valorizar os mestres antigos que ainda estão vivos. Como sabemos, além de Mestre Bimba e Mestre Pastinha muitos morreram na miséria sem nenhum amparo do Estado e dos próprios capoeiristas. Toda vez que perdemos um mestre antigo  deparamos com um futuro incerto:o que vem pela frente?Os mestres de verdade é difícil de encontrar e a roda de capoeira vai se tornando mais órfã! Conheci Mestre Bigodinho em precário estado de saúde; contava sim, com a ajuda de Mestre Lua Rasta que angariava algum dinheiro para garantir um pouco mais de dignidade ao MESTRE. Mas beirando tenra idade e com sérios problemas de saúde e financeiros, o mestre se foi. É Mestre, o sinhô deve estar cantando suas ladainhas e improvisando seu colorido samba de roda que tanto gostava de fazer por essas bandas. Foi reencontrar seu mestre Waldemar e tantas estrelas que tem por lá.
Axé Mestre!
                      tudo na vida se passa,
                      tudo na vida é passar!