Por costume, prática e profissão preciso caiar a capoeira todos os dias. É uma hesitação que me obriga rever episódios e neste percurso me pego buscando pistas, temeroso de que o público do qual eu faço parte fique apenas na própria imaginação do escritor. Observando bem o cenário da capoeira, passeio pelas livrarias, respondo e-mails e me embriago através da geografia proporcionada pelos intensos deslocamentos em que a arte se manifesta. Não é incomum esta busca de prazer (muito além do plano fisiológico ou resultado de uma entrega à fruição ou premiação). Obtemos, sem dúvida, belas imagens da maravilha da capoeira em seus diversos aspectos e formas de se manifestar. Assim, passei a ajustar meu próprio processo de aprendizagem a fim de encontrar a mim mesmo. Ainda que seja claro a todos, a arte de gingar causa um estranhamento de si mesmo e por muitas vezes nos perguntamos como pode algo ser destinado...a mim ou a nós todos? Talvez a arte, que pode lhe ter como destinatário, acabe por gerar a sensação de que se é incapaz de atingir tais expectativas. É uma experiência cada vez mais corriqueira e compartilhada, por isso capoeira se faz com "o outro". O tal "estranhamento de si" é o resultado do sujeito moderno com a sensação de se ver obrigado a fazer e agradar a todos além de encontrar um mundo transbordante de significados. Na roda, as antecipações formaram uma imagem de platéia que deu em mim uma experiência inquietante: a conformidade com o caminho aberto pelo próprio artista. Eis aqui um capoeira de sorte que tem o seu próprio público onde seu trunfo, em dificuldade, resolveu falar da própria dificuldade. Infelizmente, em nossa alta, pós, tardo modernidade estranhamos os processos mais íntimos de nossa condição. A reflexão é o reencontro daquilo que não é mais seu, agora passível apenas com mediações, típico da modernidade.

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