para um bom leitor

...escrever é sempre um ato de existência.Quando se escreve conta-se o que é...A história é mais real do que qualquer explicação.A realidade do que sou está mais no que escrevo do que nas racionalizações que possa fazer. (Ruth Rocha)

domingo, 13 de novembro de 2011

Espaço e tempo.

Por costume, prática e profissão preciso caiar a capoeira todos os dias. É uma hesitação que me obriga rever episódios e  neste percurso me pego buscando pistas, temeroso de que o público do qual eu faço parte fique apenas na própria imaginação do escritor. Observando bem o cenário da capoeira, passeio pelas livrarias, respondo e-mails e me embriago através da geografia proporcionada pelos intensos deslocamentos em que a arte se manifesta. Não é incomum esta busca de prazer (muito além do plano fisiológico ou resultado de uma entrega à fruição ou premiação). Obtemos, sem dúvida, belas imagens da maravilha da capoeira em seus diversos aspectos e formas de se manifestar. Assim, passei a ajustar meu próprio processo de aprendizagem a fim de encontrar a mim mesmo. Ainda que seja claro a todos, a arte de gingar causa um estranhamento de si mesmo e por muitas vezes nos perguntamos como pode algo ser destinado...a mim ou a nós todos? Talvez a arte, que pode lhe ter como destinatário, acabe por gerar a sensação de que se é incapaz de atingir tais expectativas. É uma experiência cada vez mais corriqueira e compartilhada, por isso capoeira se faz com "o outro". O tal "estranhamento de si" é o resultado do sujeito moderno com a sensação de se ver obrigado a fazer e agradar a todos além de encontrar um mundo transbordante de significados. Na roda, as antecipações formaram uma imagem de platéia que deu em mim uma experiência inquietante: a conformidade com o caminho aberto pelo próprio artista. Eis aqui um capoeira de sorte que tem o seu próprio público onde seu trunfo, em dificuldade, resolveu falar da própria dificuldade. Infelizmente, em nossa alta, pós, tardo modernidade  estranhamos os processos mais íntimos de nossa condição. A reflexão é o reencontro daquilo que não é mais seu, agora passível apenas com mediações, típico da modernidade.

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