para um bom leitor

...escrever é sempre um ato de existência.Quando se escreve conta-se o que é...A história é mais real do que qualquer explicação.A realidade do que sou está mais no que escrevo do que nas racionalizações que possa fazer. (Ruth Rocha)

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Escolarização de um saber

A capoeira não é algo que caiu do céu; é um conhecimento que  foi construído  historicamente  pelos sujeitos (KHOL,2012). Nesse sentido, é possível refletir sobre a escola contemporânea e seus processos de ensino-aprendizagem, assim como a abertura desta ao conhecimento produzido pela humanidade, entre eles, a capoeira. Por meio de saberes e abordagens científicas, constata-se na prática da capoeira os mais diversos aspectos educativos sob os olhares de distintos teóricos críticos da educação. A leitura e reflexão da obra "Gingado na prática pedagógica escolar: expressões lúdicas no quefazer da educação física", de Henrique Gerson Khol  desvela possibilidades educativas que essa prática possui no contexto escolar. Khol (2012, p.30) trilha no caminho da ludicidade sob uma perspectiva freiriana, evidenciando que a capoeira é uma prática pedagógica humanizadora. De acordo com Kohl (2012,p.37):

"Jogar a capoeira representa possibilidades de expressões de ludicidade,ao ter o prazer de sentir os ritmos da mesma pelas sensações que vibram nos corpos livres; na expressão de seus gestos, jogar satisfeito com uma emoção diferente a cada parceiro (a); ao escutar cada música, sentir arrepios no corpo; ao ouvir os sons que emergem do coletivo que configura na roda de capoeira; se entregar aos pensamentos que antecedem a entrada na roda; na felicidade de descobrir alternativas para superar limites e demais experiências por viver a corporeidade de forma plena".
  
Esse mesmo autor referencia seu estudo ao "gingado no chão da escola" e diz que a dinâmica da prática da capoeira "(...) representa possibilidades de extrapolar o conhecido, realizar novas construções, reler o mundo com um gingado de ser humano, sujeito histórico" (KHOL,2012,p. 36-37)

...Bora rever nossa prática!!!


REFERÊNCIA

KHOL, Henrique Gerson.Gingado na prática pedagógica escolar: expressões lúdicas no quefazer da educação física. Recife: Ed. Universitária da UPFE, 2012.



terça-feira, 19 de novembro de 2013

CAPOEIRA INCLUSIVA

O valioso trabalho "Capoeira Inclusiva: de mãos dadas e sem se olhar", de Josimar Araujo (Instrutor Vermelho-ABADÁ-CAPOEIRA) vem mostrar através do seu estudo e prática os aspectos inclusivos pertinentes à arte da capoeira. No capítulo "Ensinar segurando as mãos", o autor chama a atenção para com a figura de Mestre Bimba, pois com toda sua personalidade forte e de Lutador tinha sensibilidade ao ensinar pegando nas mãos do aluno. Araujo (2013, p.59) entende que  "Mestre Bimba, ao pegar nas mãos do aluno,com tantas implicações em seu crescimento, faz a pessoa prioritariamente  sentir-se aceita e capaz. Nessa aproximação, a barreira do preconceito foi quebrada, a do inatingível superada, e o sentimento de não pertencente, substituído pelo eu faço parte". Paremos para pensar junto com o autor, a capoeira sempre foi inclusiva desde o tempo da escravidão. Nasciam crianças com problemas congênitos, partos de negras sem êxito causando anomalias, incompatibilidade sanguínea, acidente genético (Síndrome de Down) entre outras. O castigos brutais também causavam algum tipo de  deficiência física, mental  ou motora nos escravos. Nessa reflexão é possível que a capoeira involuntariamente oferecia um contexto de aceitação pautada na autonomia e liberdade, ou seja, a perspectiva da capoeira inclusiva era um meio de sobrevivência dos escravos deficientes. Araujo (2013) traz notícias de jornais da época relatando o perfil de escravos fugidos com algum tipo de deficiência. Vamos refletir também sobre Mestre Pastinha que era cego, Mestre Waldemar da Paixão que tinha " Mal de Parkinson", Mestre Gigante que era excluído por sua estatura baixa, todos esses exemplos de vida  a capoeira sempre incluiu destacando suas potencialidades, seja como jogador, cantador ou tocador nas rodas de capoeira . Segundo o autor da "Capoeira Inclusiva", retornando ao princípio de "pegar pelas mãos"  de Mestre Bimba a capoeira deve"(...) convergir para  aprendizagem, no mais amplo sentido, e na inclusão dos que têm algum tipo de deficiência ou dificuldade de inserção social" (p.59)
Bora entrar nessa roda!!!


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Literatura infantil

Considerando a criança em seu processo de desenvolvimento e a infância ser um período de aprendizagem, a nova literatura infantil vem de encontro da nova concepção de criança. Ou seja, aquela criança que é capaz de criar, ser livre e ser respeitada em seus direitos básicos. A literatura infantil deve privilegiar o imaginário dos pequenos dialogando com o mundo que a cerca fazendo que as crianças interajam com o seu processo educacional. Para que isso aconteça é preciso uma boa formação nessa área, pois a constatação de professores que não sabem ministrar aula de literatura para as crianças é preocupante. A maioria de educadores e professores que observamos confundem a intenção dos livros infantis, pois tratam as histórias infantis  somente para ensinar conteúdos didáticos e preceitos morais. Cabe aqui o alerta, livro infantil NÃO  é livro didático.  A intenção do literatura infantil é despertar o gosto e o prazer pela leitura deixando que a própria criança desperte seu imaginário, que ela entenda a condição humana como morte, inveja, vingança, felicidade, identidade etc buscando seu próprio entendimento da história contada. Portanto,  diante da demanda de produção literária no Brasil é preciso escolher bons autores e boas ilustrações que sejam coerentes com a história a ser contada. Um bom texto literário é aquele que permite pausas, silêncios, continuidade e metáforas; é aquele em que o leitor é convidado a interagir com a história que está sendo contada. Um bom texto literário não é uma receita de bolo ou bula de remédio,ou seja, um fim em si. Além disso, caro educador!Não basta ter em mãos uma obra rica em todos esses aspectos se não tiver uma conotação pedagógica permeando a literatura infantil- conhecer a fundo as obras, tomar conhecimento do funcionamento do gênero distanciando de conteúdos utilitários e descobrir meios e estratégias para atrair os pequenos leitores está na pauta da educação infantil.


 Assim estaremos contribuindo para a formação de adultos mais conscientes, críticos e criativos na sociedade contemporânea. Bora lá!!!

sábado, 7 de setembro de 2013

podar o estresse, plantar saúde!

O equilíbrio na relação sociedade-natureza está nas mãos da geração atual para que possam buscar uma sociedade sustentável. A capoeira está inserida nessa discussão através de ações educativas que promovem a reflexão e a consciência desse público para a utilização mais racional dos recursos naturais. A dissertação de Mestrado de Andréa Cunha (Maestrinha) traz para o estudo a  estreita relação da capoeira com a natureza, apresentada através das ações da ABADÁ-CAPOEIRA pelo seu mentor Mestre Camisa. Pelo viés da educação, a autora traça a intersecção entre a capoeira e desenvolvimento sustentável. Para CUNHA (2013, p.21) " A capoeira relacionada ao desenvolvimento sustentável pode ser um suporte cultural de grande utilidade social e intenções nobres". A riqueza e a complexidade dessa arte combina teoria e prática, estilo de vida; surgiu do ambiente rural e está inserida no meio urbano. Enquadra-se como um fenômeno cultural, social, esportivo, afirma esta mesma autora. A capoeira está no cenário internacional, torna-se um veículo poderoso para transmitir mensagens ambientais, o seu encantamento faz o mundo gingar em harmonia com os seres e a natureza. E ainda, CUNHA (2013 ) aponta que os espaços e tempos são outros, a profissionalização e a globalização da capoeira demandam outras perspectivas como eventos mais estruturados e contemporâneos. Na presente obra, destaco o capitulo 3 "Capoeira como ferramenta de educação em prol do desenvolvimento sustentável" e "Capoeira no meio educacional". A aprendizagem na capoeira está voltada para a igualdade e respeito dos praticantes. Portanto, " A capoeira é uma ferramenta que trabalha determinados conceitos de formação humana,pois, transformam comportamentos, atitudes e conscientiza os educandos pelos valores importantes na sociedade em que vivemos" CUNHA (2013,p.38). As diferentes interpretações, as visões multifacetadas na capoeira possibilitam uma amplitude em suas aplicações no que diz respeito à formação humana.  A  autora relata que " Atualmente a capoeira é oferecida no ambiente educacional, da creche à Universidade, em um contexto curricular e extracurricular, e é considerada por muitos profissionais da área , um instrumento complementar de educação de grande impacto nos indivíduos que a praticam, seja em ambientes formais ou não-formais de ensino"(p.38). Neste contexto (CUNHA, 2013), sugere o compromisso dos educadores de capoeira com a educação.
BOA LEITURA!


CUNHA, Andréa. Um Futuro em Comum- Capoeira e Desenvolvimento Sustentável- Ações da Instituição ABADÁ/ Andréa Cunha- Rio de Janeiro: PPGGAF- UNIVERSO,2013.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

MEU VELHO

Em memória de meu pai "Seu Miguel", a ele devo "saúde, dinheiro e obrigação"

AS MÃOS DE MEU PAI

As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
- como são belas as tuas mãos-
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos...

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços de cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste
arder, fulgir
com o milagre de tuas mãos.

E é, ainda, a vida
que transfigura de tuas mãos nodosas...
essa chama de vida- que transcende a própria vida
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma...


MARIO QUINTANA- Esconderijos do Tempo

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Informação não é experiência

 A velocidade da informação do mundo moderno impede a memória e experiência. A obsessão pelo novo tornou os acontecimentos fugazes, de forma que a velocidade com que as coisas e relações humanas acontecem largamente são substituídas por um momento. Sem deixar vestígios, tais acontecimentos  afetam também nossa memória porque tudo que acontece no mundo cibernético é imediatamente e igualmente substituído por outro anulando nossas possibilidades de experiência. Capoeiristicamente falando, podemos readequar a linguagem da cultura da capoeira dando SENTIDO ao que SOMOS e o que NOS acontece. Para além da ciência/técnica, teoria/prática  uma perspectiva nos dá uma luz: experiência/sentido.  A  cada dia passam muitas coisas, mas nada nos acontece. Já a experiência é o que nos acontece, nos toca, nos dá sentido.  Nesta busca incensante pelo saber ( no sentido de "estar informado" e não no saber  no sentido de "sabedoria") nada nos provoca a reflexão ou nos transforma. Quando assistimos um vídeo, lemos um livro ou informação ou fazemos um curso podemos dizer que sabemos coisas que antes não sabíamos, mas podemos dizer também que nada nos aconteceu, não houve mudança nem sentido em nossas atitudes. Isto chama-se vivência instantânea, pontual e fragmentada, o estímulo é dado em forma de choque!! Além disso, a experiência é cada vez mais rara , pela falta de tempo. O capoeirista moderno está eternamente insatisfeito, é consumidor voraz e insaciável de notícias e já tornou incapaz do silêncio; tudo o atravessa, o agita, mas nada lhe acontece. A falta de memória e silêncio são inimigas mortais da experiência. A mediação entre o conhecimento e a vida humana é o saber da experiência. BUENDÍA (2002) nos ajuda a refletir dizendo que "(...)se a experiência é o que nos acontece, e se o sujeito da experiência é um território de passagem, então experiência é uma paixão".

BUENDÍA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Universidade de Barcelona, Espanha. (2002) n°19

domingo, 28 de julho de 2013

Guerreiros da lida


O Contramestre SAPO e a professora  LUCIANA (Gingado Nacional) são promessas d grandes referências no mundo da capoeira. Quando refletimos sobre o mundo contemporâneo e seus aparatos tecnológicos podemos constatar a necessidade de diálogo, aproximação sobretudo orientação à uma nova geração de capoeiristas que estão chegando. É um público heterogênio, das mais diversas individualidades e necessidades que, cansados de serem cúmplices da robotização das relações humanas voltam-se para a experiência das artes, especialmente a capoeira. Nessa busca, o comprometimento e a responsabilidade  por parte dos profissionais da capoeira  é imprescindível para contribuir  na formação humana dos alunos. Dessa forma,  um misto de experiência de vida, formação  e conhecimento da cultura da capoeira faz-se necessário ao perfil de um profissional da capoeira. O curso ministrado neste sábado (27/07) por estes dois camaradas acima é bom exemplo do que estamos falando. A educadora LUCIANA reflete positivamente vários aspectos que gostamos de identificar numa aula da capoeira atualmente. Dentre eles, a roda de conversa, a  técnica, didática, desprendimento e segurança na condução da aula foram fundamentais. Reforçamos que estes meios pedagógicos são essências de uma prática que contribua para a formação humana dos capoeiristas.  Além de cantador de "mão cheia", podemos enumerar uma série de aspectos que se entrecruzam na figura humana do Contramestre SAPO. Talvez o espirito contemplativo e/ou as mensagens das cantigas compostas e entoadas por esse educador revelem  a totalidade desse profissional da capoeira. Eu disse, talvez! SAPO é daqueles que não se encontra com facilidade: é um capoeira completo. A humildade e jeito de ser o distingue do mar de capoeiristas que tem por aí.
Valeu meus camaradas pelo aprendizado!

segunda-feira, 8 de julho de 2013

cuidar é ocupar-se com o outro...

Conforme MARANHÃO (2011, p.17) "Cada criança reage a meio de acordo com o seu desenvolvimento e características. Aqueles que se ocupam com seu cuidado e sua educação constituem-se numa referência para ela, nomeando e atribuindo significado às suas demandas e suas reações, mediando sua relação com o meio físico e social." Por meio de manifestações culturais cotidianas é possível observar  como os educadores contribuem para o pleno desenvolvimento dos pequenos nas suas ações. No caso da capoeira, cenário rico para observação, as práticas de cuidado com as crianças corresponde a uma visão de mundo e a organização social daquele ambiente. A prática do cuidado tem como objetivo primário a manutenção da vida e o bem-estar psicofísico. Portanto, como toda a ação humana, é compartilhada e ensinada às crianças. Devemos estar atentos às mudanças nas práticas de cuidado infantil, pois os cuidados mudam conforme o processo histórico e social e tais técnicas empregadas em determinada época podem ser criticadas e modificadas por influência o conhecimento produzido. Dessa forma, diversas linguagens se constituirão como forma de comunicação das necessidades e desejos. Este alerta está nos dizendo a todo o momento que brincar é mais sério do que a gente pensa!Portanto, atitudes e procedimentos por parecerem "naturais", são considerados experiências significativas no processo de aprendizagem das crianças.
Por fim, acreditamos que a capoeira é um rico espaço de ensino-aprendizagem para a Educação Infantil,



Batizado e Troca de cordas- Educador BARRIL (2013)
desde que os profissionais procurem compreender a incompletude da criança como uma virtude; cuidar e ensinar na capoeira também demanda uma constante tensão entre garantir a segurança delas e ao mesmo tempo incentivá-las e apoiá-las no desenvolvimento humano.

MARANHÃO, Damaris Gomes. O cuidado de si e do outro. In: Revista Educação. Publicação Especial Educação Infantil. Vol.2- Outubro/2011 

quinta-feira, 13 de junho de 2013

RETALHOS

O CURSO BÁSICO 2013 dessa vez se desdobra em oito partes. Cada uma delas se quer unida por um tema, o desse ano nos debruçamos sobre o pensamento do Mestre BIMBA, criador da capoeira Regional. Sei que é inútil esse esforço de dividir as rotas de um...curso básico!pois elas se entrelaçam. Na roda, no treino, no evento nossos "aquis" estão em muitos "alis" . Ao longo de oito edições do curso uma sequência de momentos, instantes, significados,sentidos vão construindo uma coerência interna de um livro. Sim, entre cenas e dilemas mais uma página foi escrita. Uma insistência que persiste nessa caminhada, e os sujeitos vão ocupando a sua cadeira cativa fazendo sua história, sua própria descoberta. Devorar ensinamentos nos permite deixar na  pedra a sua marca, sua palavra, seu jeito de ser- Percebem agora que a presença tátil do corpo se desdobra em verso de livro? É, são pulsões que a poesia se nutre. Entre gingas e berimbaus uma colcha de retalhos feita de aquis, de circunstâncias, de memória continua nos aquecendo no frio curitibano. Jogar capoeira é fazer poesia ao rés da língua também.Mais do que compreender o que o curso "quer dizer", importa compreender o que o curso "tem a dizer" na sua forma e coragem de optar por ser mais do que um mero conteúdo de impressões pessoais. Eis a construção de cada um: o sabor do tempo e de sua presença perceptiva. Agasalhe-se, cubra-se com uma boa colcha de retalhos...hoje faz muito friiiiiio!


Agradeço aos participantes desse ano por mais uma página escrita na capoeira.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

QUE CÉU ESTRELADO!

Por trás daquela face marcado pelas linhas do tempo, barba característica e timidez indisfarçável! escondia-se um olhar de ternura indescritível. Lembrava meu pai: um pouco carrancudo mas sensível ao mundo e as pessoas que o cercavam. Nas oportunidades de encontro o "Camisa Roxa" ( um dos alunos mais técnicos do Mestre BIMBA e Grão-Mestre da ABADÁ-CAPOEIRA) me falava primeiramente dos treinos e da vida, privilégio e aprendizado que somente àqueles que conseguem absorver a sabedoria dos mestres de capoeira conseguem levar para a vida toda. Pessoas como estas são seres de muita luz que vieram para este mundo dar sentido e significado nas coisas que realizamos ou não realizamos. A sua missão é nos fazer seres  humanos melhores e passarmos este ensinamento adiante. Sim. Um mestre de capoeira é aquele timoneiro que em meio às tempestades lança lastros de luz para que a embarcação chegue segura ao seu destino. O mestre Camisa Roxa o fez como ninguém. Daqui pra frente, a memória e a emoção homenageiam a argúcia e destreza do grande homem e capoeira que foi. É verdade, o mestre BIMBA foi um construtor de homens: o senhor Mestre foi um deles. Vá em paz, Camisa Roxa.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Lembranças inadiáveis

Passados trinta e poucos anos eu retorno à escola onde aprendi minhas primeiras letras. Desta vez, como estagiário da gestão pedagógica. Observo que a minha primeira escola está sucateada, negligenciada por um Estado que está preocupado em investir milhões em futebol do que na educação de seus cidadãos. A reflexão que faço agora não é o da política educacional e o que tenho a dizer é muito simples. Sãos imagens, o cheiro da sala e a amorosidade de minha primeira professora. Chamava-se Carmem. Confesso que a tenho procurado em meus sonhos, ela já não está entre nós.Mas a sala número 1 da minha primeira série permanece lá povoada de vozes!Tantas outras professoras marcaram minha vida escolar, porém nenhuma outra sobrepõe a forma humana e carinhosa desta educadora. Se o resultado daquelas mãos carinhosas que me ensinou as primeiras letras foi o meu encontro com a Pedagogia, eu a saúdo cara professora. E como é profundo a marca e a falta que o primeiro professor nos faz, pelo menos para mim. Vozes vieram à  tona nessa manhã em visita à minha sala de aula, estavam cheia de amor e ternura na sua maneira de ensinar.É,talvez eu tenha herdado tua nobre função, profe!Mas não conseguirei ser igual a você: única e sempre amável. Aqui é tempo de decepções e frustrações. No entanto, o que importa é a plena segurança de que mesmo em tempo de confusão teremos condições de acreditar no professor: nosso supremo herói. Para reiterar a minha vida deixo uma canção à mais para àquela que me ensinou o bê-á-bá. Onde houver sol, estrelas ,gramíneas, sorrisos e lágrimas brilha a loucura tão serena e positiva de um professor. Permaneço em paz e tranquilidade toda vez que minha memória me leva a outra pessoa, cuja imagem é revigorante e valorosa.Eu vos saúdo, velhas alegrias! Juntai-vos imediatamente a mim, e que possais irradiar em minha prática. Eu amava (e não sabia!) a professora que foi pra mim. Agora ELA existe dentro de mim...
Saudades da minha profe!

sexta-feira, 5 de abril de 2013

INSTANTES

A fotografia como objeto da memória se afirma cada vez mais como um modo de expressão, de informação e comunicação. Nós a utilizamos para guardar a lembrança emocionada de acontecimentos íntimos e para ilustrar nossa própria história. No espírito de muita gente, a fotografia está associada à ideia de documento. Ela serve para testemunhar uma realidade, e em seguida, para lembrar a existência desta mesma realidade. O tempo tem aqui um papel fundamental, em particular, do ponto de vista histórico e emocional, quando a fotografia é testemunha de mudanças, de transformações físicas e materiais, de desaparecimento de coisas ou de morte de ente queridos. A fotografia constata e revela, sem artifício. O personagem foi captado, num momento de sua vida, pelo fotógrafo, em sua atividade. Ao "congelar" um  instante da vida, o fotógrafo, por sua vez, coloca em evidência o antes e o depois da vida de uma pessoa. 
A fotografia também nos incentiva adivinhar aquilo que está fora do cenário fotografado. E, uma das qualidades da imagem fotográfica está no poder de evocação: ela suscita naquele que observa o desejo de conhecer mais, de imaginar, de reconstituir interiormente, a partir da visão de um destes momentos (instantes), o conjunto de uma vida.



Para saber mais: Cultura Popular e Educação: salto para o futuro (org. René Marc da Costa Silva)


terça-feira, 26 de março de 2013

Entre dois capoeiras!

Tendo a roda como palco da vida, um intrigante embate de valores e experiências pessoais torna-se um emaranhado encontro de dois capoeiras desassemelhados pelo contexto em que sempre viveram, diferentes em relação, sobretudo, ao entendimento que tem sobre a vida. O embate entre os dois capoeiras é um jogo de espelhos entre a experiência de um homem marcado pela rotina- e a experiência do outro despreocupado com o passar do tempo. Tal reflexão é sobre as venturas e desventuras do tipo que ensejam  a autocompreensão ao longo da caminhada da vida: uma imagem invertida do espelho do outro, e vice-versa. Interessante nesse diálogo de corpos é a vontade inarredável que os capoeiras sentem ao se aceitarem nessa conversa (neste jogo!). De modo que, um passa a provocar e balançar o outro com suas experiências tão diversas daquelas a que o outro está, afinal, habituado. Podemos notar , como a experiência de um, transforma e balança, a concepção de mundo do outro. Os capoeiras quando jogam são interlocutores inquietos! Nesta inquietude, os capoeiras questionam sua trajetória e põe-se a perguntar pelas vias que conduzem ao futuro, este jogo de perguntas e respostas é uma relação humana que inspira a transformação subjetiva e a mudança comportamental. Sem negar uma relação mais próxima com o outro, ele , mesmo, despertou sua consciência para novidades que aquele outro lhe apresentara durante o jogo da capoeira. O texto agora descrito, nos enseja para a surpreendente experiência na arte de viver...uma crítica à "verdades inabaláveis" e a acomodação.

domingo, 17 de março de 2013

Mestre Bimba: o mito sagrado da capoeira

Neste capítulo do livro de Hélio Campos (2009), o autor sinaliza a construção simbólica que fazemos da figura de Mestre Bimba. O mito, que perfazemos sobre o grande criador da Luta Regional Baiana se apresenta como uma realidade imediata configurando-se em imagens. Segundo Campos (2009, pg.175), o mito "(...)é um modo de dar sentido a um mundo sem sentido". E ainda " Os mitos são como as vigas de uma casa: invisíveis a uma visão exterior, são a estrutura que mantém a casa de pé para que as pessoas possam morar nela". Na incensante busca de criar mitos, asseveramos potencialidades espirituais captando mensagens dos símbolos. Mestre Bimba como um mito dá sentido de identidade pessoal, visão de futuro, realizou a sua Regional  suplantando suas dificuldades, limitações e  pouca instrução. O criador da Regional é percebido pela consciência, dependendo do ponto de vista da consciência que o contempla. No entanto se há vida, tal símbolo que analisamos tem a capacidade de transformar e modificar as emoções,sentimentos e coisas.

quarta-feira, 13 de março de 2013

A Regional de BIMBA, um fascínio

Segundo Campos (2009) o Mestre Bimba é um mito para todos que exercem liderança na roda capoeira. Portanto, se o temos como símbolo da Capoeira Regional falamos de sonhos,conquistas, crenças, amores,paixões que se foram,alegrias vividas,dores guardadas,tristezas sofridas,segredos da alma... Para mim, o Mestre Bimba é percebido pela consciência, evoca uma continuidade, às vezes misteriosamente na arte da capoeirar. Não é o único meio de trajeto em minha prática, nem também a única solução de um problema. Mas quando consigo explicar algo através de analogias, a primeira evocação que surge é o símbolo do criador da Regional. Dependendo da condição espiritual de cada um, o símbolo referenciado funciona como um mediador, uma ponte. Mestre Bimba se destacou pelo grande construtor de homens na vida de cada um de seus alunos.O reflexo disso na capoeira que jogamos atualmente tem um significado arraigado: o estado emocional de cada praticante independente da duração e intensidade. BIMBA, como força impulsionadora é um símbolo para nossas vidas.

Fonte: Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba- Héllio Campos (Mestre Xaréu)- Salvador: EDUFBA,2009.
           

quinta-feira, 7 de março de 2013

Tão cheia de graça!

O olhar de contemplação é o que devemos dedicar à todas as mulheres, especialmente nossas capoeiristas. Temos o privilegio de ter em nossa roda de capoeira a força feminina que transpõe barreiras, quebra paradigmas, vence na dificuldade. AHHH!...as mulheres capoeiras!Na roda de capoeira há mesmo um céu; um cenário com lua e estrelas que provoca, desconcerta.Paisagem ao entendimento e aos olhos. Jogar capoeira com elas tem significação e descoberta, tem aventura pessoal e estética. E ninguém chega até essas  capoeiristas com fome e sede desregrada. Há que se namorar primeiro a capa, a lombada, as cores, a forma, as imagens, os tipos, o conteúdo!Bobagem ficar engenhando e enovelando nós de logomarca, melhor proceder à compreensão, à leitura das meninas-mulheres. Portanto o amor delas é primeiro. Primeiro a mãe e seu filho. Primeiro o calor dos corpos e corações. Primeiro o desejo, primeiro o prazer. Primeiro a carícia que aplaca, primeiro o gesto que protege ou alimenta, primeiro a voz que tranquiliza, primeiro esta evidência: uma mãe que amamenta; depois esta surpresa: um homem sem violência. Da mais culta à mais pueril, da mais anciã à mais rebenta revelam o manancial humano, todas cheias de graça.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Capoeira: uma perspectiva sócioeducativa

A capoeira é para todos, deve através de sua prática trazer significado às pessoas que nela recorrem. Diante de um mundo globalizado em que a maior parte da formação das pessoas é para o mercado de trabalho, a capoeira contrasta com esta perspectiva trazendo no seu conteúdo a formação humana. Por ser simples, mas verdadeira ela traz no seu bojo o poder de socializar, agregar. É aspecto de grande importância em um mundo que se declara cada vez mais individualista ditando que as pessoas podem viver sem as outras. Esta arte de gingar é uma visão de mundo em que o outro se faz necessário, portanto seu poder socializante. Educar através da capoeira faz de sua simplicidade uma arte plural, necessária às futuras gerações e alento aos mais velhos. Nas comunidades carentes, a capoeira atua na adversidade e na diversidade de situações se transformando conforme a razão e a realidade assegurando o convívio e parceria familiar.Através do berimbau  podemos abordar e agir com ações educativas sobre todo o tipo de violência,drogas, sexualidade e família abrindo os olhos dos praticantes sobre as mazelas da sociedade. Mas os problemas nãos estão somente nessas comunidades, sentimos que outras classes sociais (média e alta) tem a necessidade de apoio e lhes faltam o convívio entre os pares. A roda de capoeira por ser simples tem a cultura, o conhecimento, o canto, a música e a poesia entre tantas coisas. Por ser simples é pra todo mundo!

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Como chegar até aqui com os pés no chão

Rebusco o baú da minha infância,  ato que  tornou-se necessário para a dita passagem do meu  tempo. Pestanejei e procurei interpretar o mundo a minha volta e,quando faço isso as imagens na memória dizem porque sou assim. Trago na lembrança  imagens da infância que não foram quebradas percebendo que minha trajetória humana não está sendo coisificada e sem sentido. Explico, pratico capoeira com poesia para que a vida seja mais leve.No entanto,estamos em tempos de rápida substituição das imagens da infância. As perplexidades redefinem a nossa vida, e por hora nos revelamos inseguros sem um porto seguro. Em estado de vigília vou me conduzindo com mais jogo de cintura, talvez pegando o caminho da volta: o da humanização, do bem querer, das pessoas, da natureza; caminhos tão difíceis nos dias atuais!Há muita apreensão, mas também muito afeto; em nossos tempos a imagem humana pode ser recuperada, dependerá do aprendizado que tivemos lá atrás. Desse modo, agrupo reflexões reinventando a toda hora convívios para que a vida continue eternizando..
Obrigado pelas palavras e gestos de carinho!

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Identidades fakes


As possibilidades do cyberspaço que se apresentam na sociedade contemporânea permitem trilhar as superficções, bem como libertar fantasias.O artista pode vivenciar suas criações imaginárias implantando-as na sua realidade.Então, por hora cliquemos em uma palavra chave "CAPOEIRA". Como exemplo da apropriação do imaginário capoeirístico surge uma roda de capoeira flutuante onde o bem e o mal, o verdadeiro e o falso estão interrelacionados, seus problemas e soluções. No discurso dos capoeiristas, também no mundo real faz uso das corriqueiras práticas do seu universo, seus jargões costumeiros, apresentações eloquentes em clássicas formas de jogar. Tal postura também traz o jogo de aparências quando o capoeira instaura certa ambiguidade entre o espaço de sua prática, sua função utilitária e a função estética dos objetos que apresenta. Estamos imbuídos nesse sistema, desenvolvemos vários atos através da capoeira, sendo especialmente ativos na web. Qualquer produção está sobrecarregada do falso e do verdadeiro, entre o conteúdo e a aparência, entre o espetáculo e a funcionalidade, entre o incluído e o excluído. E, ainda que seja possível aprender capoeira na web, o SIGNIFICADO e o SENTIDO de tal conhecimento somente pode ser compreendido no tato, na conversa ao pé do olvido, na regularidade da prática real e participativa!No âmago das ações na web, os artistas-capoeiristas em suas libertações e superficções podem e devem atuar em tom provocativo envolvendo suas capacidades de discernimento sobre o falso e verdadeiro, decifrando o jogo de aparências na roda flutuante, especialmente a posição crítica diante do cyberspaço. É neste ponto  que estas manifestações encontram relevância: o seu papel de estabelecer um movimento contrário capaz de incentivar a heterogeneidade deste espaço, por mais curioso que possa ser! Caso curiooooso!

sábado, 19 de janeiro de 2013

O pássaro que desce do céu



Embora pronunciasse palavras, o que ouvia era apenas o canto da ave. Voou até o ombro do capoeira e convidou-o a descansar e esperar a quietude. Mas as palavras que saiam tão claras daquela voz da natureza o perturbaram e parou. O pássaro compreendeu.  Ouvia também o chamado que era percutido pelo arame daquele instrumento que chamava todos que estavam em volta. Era o momento da reflexão, da calma, do homem voltado para si. Quando isso acontecia, o canto do pássaro eram palavras compreensíveis. Sabia o capoeira que tinha feito muitos trajetos, jamais desistido. O capoeira que fazia o jogo da vida examinava cada passo do caminho que seguia. Mas diante dos percalços dessa vida, tinha o capoeira tanta segurança para seguir? O pássaro que desce do céu e sobre um galho seco canta, diz ao homem: amigo homem, esse é um caminho errado. Não vê?O homem parou. E qual seria o certo? O coração do homem é a medida do universo. Neste momento desdobrou-se para o capoeira o caminho correto. E, escorada em profunda felicidade, a Iúna voou até o ombro dele e se pôs a cantar.