para um bom leitor

...escrever é sempre um ato de existência.Quando se escreve conta-se o que é...A história é mais real do que qualquer explicação.A realidade do que sou está mais no que escrevo do que nas racionalizações que possa fazer. (Ruth Rocha)

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

MEU VELHO

Em memória de meu pai "Seu Miguel", a ele devo "saúde, dinheiro e obrigação"

AS MÃOS DE MEU PAI

As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
- como são belas as tuas mãos-
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos...

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços de cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste
arder, fulgir
com o milagre de tuas mãos.

E é, ainda, a vida
que transfigura de tuas mãos nodosas...
essa chama de vida- que transcende a própria vida
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma...


MARIO QUINTANA- Esconderijos do Tempo

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Informação não é experiência

 A velocidade da informação do mundo moderno impede a memória e experiência. A obsessão pelo novo tornou os acontecimentos fugazes, de forma que a velocidade com que as coisas e relações humanas acontecem largamente são substituídas por um momento. Sem deixar vestígios, tais acontecimentos  afetam também nossa memória porque tudo que acontece no mundo cibernético é imediatamente e igualmente substituído por outro anulando nossas possibilidades de experiência. Capoeiristicamente falando, podemos readequar a linguagem da cultura da capoeira dando SENTIDO ao que SOMOS e o que NOS acontece. Para além da ciência/técnica, teoria/prática  uma perspectiva nos dá uma luz: experiência/sentido.  A  cada dia passam muitas coisas, mas nada nos acontece. Já a experiência é o que nos acontece, nos toca, nos dá sentido.  Nesta busca incensante pelo saber ( no sentido de "estar informado" e não no saber  no sentido de "sabedoria") nada nos provoca a reflexão ou nos transforma. Quando assistimos um vídeo, lemos um livro ou informação ou fazemos um curso podemos dizer que sabemos coisas que antes não sabíamos, mas podemos dizer também que nada nos aconteceu, não houve mudança nem sentido em nossas atitudes. Isto chama-se vivência instantânea, pontual e fragmentada, o estímulo é dado em forma de choque!! Além disso, a experiência é cada vez mais rara , pela falta de tempo. O capoeirista moderno está eternamente insatisfeito, é consumidor voraz e insaciável de notícias e já tornou incapaz do silêncio; tudo o atravessa, o agita, mas nada lhe acontece. A falta de memória e silêncio são inimigas mortais da experiência. A mediação entre o conhecimento e a vida humana é o saber da experiência. BUENDÍA (2002) nos ajuda a refletir dizendo que "(...)se a experiência é o que nos acontece, e se o sujeito da experiência é um território de passagem, então experiência é uma paixão".

BUENDÍA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Universidade de Barcelona, Espanha. (2002) n°19