para um bom leitor

...escrever é sempre um ato de existência.Quando se escreve conta-se o que é...A história é mais real do que qualquer explicação.A realidade do que sou está mais no que escrevo do que nas racionalizações que possa fazer. (Ruth Rocha)

domingo, 27 de junho de 2010

impressões da roda IV

 Técnicamente e fisicamente sabemos que a capoeira faz muito bem, com seus ganhos sobre performance e agilidade motora em suas mais variadas formas de treinamento específico ou não, depende também de uma busca pessoal do próprio capoeirista, a que objetivos deseja atingir, a que ou a quem se destina jogar e treinar ....capoeira. Somemos a isso as emoções, a individualidade, o jeito de ser de cada um e os sentimentos que arrolam quando estamos a" sós" ou em coletividade na roda de capoeira. Hoje me dou conta de uma coisa que chamo de Currriculum emocional: faz parte da existência do capoeira, era algo que no começo não tinha relevância para mim, alguma coisa faltava no capoeira que tanto gingava. Mas o tempo vai dando conta de mostrar que a formação humana é de extrema importância para o bem comum, seja qual for o instrumento que você utilize para que isso se efetive, em nosso caso a capoeira. Para muitas atitudes ou comportamentos fazemos vista grossa porque nessa demora o próprio indivíduo perde a noção do que está falando ou fazendo, no entanto devemos agregá-lo e mostrar-lhe que algo lhe falta e trazê-lo para a realidade dos fatos ou das coisas. Temos jogado muita capoeira com essa nova geração que desponta sob outros olhares, é hora de mudar novamente, as possibilidades aumentaram e o desejo de humanização é latente e necessária para que possamos entender que as coisas que amamos e gostamos de fazer não seja baseado numa relação de troca de mercadoria, mas sim em completudo com meu próximo.Afinal capoeira se faz com o outro e não contra o outro. Muitos sobreviventes dos tempos difíceis da capoeira curitibana estiveram na roda do Muffato para comprovarem que não é so a destreza técnica e física que constrói o capoeira, mas também o seu currículo de emoções, na soma de gestos de respeito e reconhecimento, cada qual a seu jeito
Aos alunos Sagui,Mosca, Jeitoso,Chinchila,Cadeado,Barata,Sanfona,Delicada...obrigado pela companhia na maratona que houve esta semana, juntos  fazemos nossa parte na formação humana e nosso Curriculum emocional torna-se a cada passo dado consistente. Valeu o cansaço!!
                                                         estamos jogando!!

terça-feira, 22 de junho de 2010

riso largo ou cara amarrada?

Há muitos fatos verdadeiros, muitas vezes por mim presenciado que faz refletir e convidá-lo para jogar esta roda comigo.  Através deste blog, faço meu exercício de escrita nos momentos de folga, (neste momento estou sem sono e são quase uma (1) da manhã e daqui a pouco tenho que levantar e sair para a UFPR!...mas vamos lá), eu quero escrever.
Indiretamente ensino, às vezes camuflando verdades e lições que alguns alunos não ouvem, não veêm, não absorvem...mas que fica subentendido, acho eu! Nestas andanças minhas, a roda de capoeira afora me fez sempre enxergar o capoeira de "riso largo", este sim é bom de encontrar, de jogar, é a soma de partes distintas entre vários estilos de capoeira. No entanto me pego pensando se talvez eu tenha a quilometragem necessária para entender o tal do capoeira de "cara amarrada", é a contradição da capoeira, é incompletude. Dizem por aí que é perigoso, não fala, é cheio de músculos e joga como ninguém...é o cão!  Realmente já topei com este tipo por aí, e penso que não adiantou ter jogado duro devolvendo à ele o mesmo olhar de brucutú, não valeu a pena!me perdi, levantei, avaliei e segui outro caminho. O problema do valentão está lá atrás, por onde andou e quem lhe formou, geralmente é um arquétipo de capoeira acéfalo, cheio de problemas e quer sempre ganhar na força física; é um autêntico narciso, joga só. Gingar não ginga mais, seus pontapés parecem que quer acertar a platéia. Eu ainda não tenho a quilometragem de capoeira dos grandes mestres, mas o quanto caminhei até aqui me faz concluir que para o "cara amarrada" , BIMBA e PASTINHA lhes falta.E também falta-lhe humildade, sabedoria, destreza, conhecimento e sensibilidade,ficar mais capoeirista enfim.
Num dia desses, de madrugada ( noite de insônia), li sobre a última lição que mestre Itapoã aprendeu de seu mestre o "Bimba": ...a palavra dada não precisa de assinatura, ela fala por si só, é para ser cumprida.
Tenho tentado colocar em prática esta lição, algumas vezes me dou mal, mas mestre Bimba dizia que a decepção também faz parte do jogo,
                                                        tô jogando!!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

CURSO-BÁSICO: entre a cena e o papel

Comecemos por indagação: até onde queremos chegar com a prática do Curso-Básico?
Reviro papéis, fotos, vídeos, falas, erros, acertos e logo me permito responder que a prática destes anos todos nesta história sugere que o evento continue remando: longa vida para o Curso. Esta  cena se repete  todo ano na busca constante de  outros olhares sobre a capoeira. Há cinco anos estamos realizando esta tarefa; e podemos avaliar que o CURSO está tomando corpo na sua idéia e originalidade. A prática deste tipo de encontro fortalece a capoeira e  amplia a visão dos capoeiristas, seu objetivo se volta para um treino Básico forte, no intuito de melhorar a técnica e postura de movimentos. Sugere também outros métodos, tendências,e várias possibilidades com materiais voltadas para o lúdico e a técnica. Do papel saiu muitas idéias para a nossa prática e a medida que os capoeiristas procuram entender a importância deste tipo de proposta, a capoeira segue em frente. A arte ganha notoriedade na medida que se organiza, pesquisa e planeja sobre o assunto: este é o futuro da capoeira!E aquele que caminha com a evolução, relaciona com outras áreas e traz para a conversa todos que desejam fazer trocas de conhecimento em função do jogo da capoeira estará dentro do pensamento de Mestre Bimba.
No entanto, ao promovermos um evento como este nos tornamos alvo de desconfinça e falácias. Em contrapartida estamos ancorados por pessoas com alto grau de competência e visão.Lidar com pessoas, aceitar críticas, agradar a quem não se agrada, nunca foi fácil, são fardos que acostumamos carregar: o tempo e a experiência  dá a sabedoria necessária para atuar neste tipo de situação e o fardo vai mais ficando mais leve.
Para o leitor,e também para quem se interesse por capoeira tudo isso parece muito salutar: nestas palavras o alerta é  para o que existe de bisonho e esquisito, de insuficiência intelectual e prática na capoeira. Infelizmente, a nossa arte de gingar é massacrada pela rotina de professores sem noção,mestres da noite para o dia, e atualmente, o afamado Educador de capoeira que não se aprimora e vive sua prática  pouco criativa e sempre autofágica ( ainda existem professores  que se devoram em  lutas pequenas pelo poder ainda menor, tudo disfarçado em incompatibilidade teórica e técnica) ,assim a capoeira vai mal. Não é isso que queremos!
O CURSO-BÁSICO tem um belo sentido: não vai resolver os problemas da capoeira, mas quem o faz sai mais forte e motivado para encará-los de maneira a suportar tais adversidades e superá-los. A capoeira é uma atividade que toca no espírito das pessoas, portanto esta tarefa está sempre na mãos daqueles que proporcionam interação entre elas...desta forma a capoeira faz sentido.
Sim, aceito um copo d´àgua, obrigado!!rs
AGRADEÇO À TODOS QUE ESTIVERAM NO CURSO BÁSICO-2010.

sábado, 5 de junho de 2010

Meu amigo: o capoeira

O capoeira que eu imagino é aquele que faz de cada presença na roda a sua promessa de pernada posterior.Ele sempre termina o treino ou jogo com o sentimento de recomeço. Às vezes a roda teima ser uma indagação, a menos que ela ( a roda) suplante as tensões e atenções por aquilo que não se espera, aquilo que a capoeira tem de mais rico: a surpresa.
O capoeira que eu imagino é aquele que por mais adversa que seja uma roda, um jogo ou um momento, a capoeira impõe no bom sentido uma atenção e um interesse especial, pois para esse capoeira a vida seria menos do que ela é, sem  a capoeira. Ele quer ser a roda, e no seu bojo dizer sobretudo o que não quis dizer; e fazer da ginga ao menos parte do seu modo de ser.
O capoeira que eu imagino joga nas situações mais conhecidas por ele sempre com os olhos da primeira vez. A medida que joga perto do outro ele amplia, alarga, expande seu ego e ganha mais espaço para acolher e hospedar mais gente dentro dele e igualmente se tornar cada vez mais solidário, depois de cada jogo brincado.
O capoeira que eu imagino precede e pressupõe a história do capoeira antes de jogar. Ele nunca teve ou terá um mestre predileto- ele pode sim ter a predileção por um único mestre.Eventualmente ou por necessidade de sobrevivência, busca o conhecimento utilitário dos livros, mas em tempo algum abre mão da prática e presença na roda como uma das experiências mais felizes.
Para este capoeira que eu imagino existe um livro escrito especialmente para ele, igual a um amor predestinado, ainda que este encontro viva somente no imaginário de quem lê ( ou joga) como quem ama e ama como quem lê...joga!
O capoeira que eu imagino é o personagem principal da história mais incrível que alguém jamais escreveu. E a capoeira em algum ponto limiar em que viver é uma promessa, ela existe para fazer viver mais, ao menos um pouco mais ou eternamente, o que é matéria viva e não pode nunca morrer.
O capoeira que eu imagino vive dentro de nós!
                                       (baseado na prosa de Jorge Miguel Marinho)

Quem sou eu sem capoeira, quem sou eu?

Cada um tem a vida que pode levar! A minha é movimentada e conduzida pelo som do berimbau, pelo jogo da capoeira. É o dobrão, quando encostado no aço (assim diziam os antigos capoeiras)que transfere uma vibração que encanta até quem não quer se encantar. Afinal, como pode um instrumento de uma corda só, ditar o caminho e a vida das pessoas? É uma ligação ancestral que nos remete aos grandes pretos africanos que tinham na sua palavra o mais forte desígnio na condução de suas tribos. É o respeito ao mais velho; é a palavra que basta para que tudo se esclareça. Nesse sentido  conduzimos o dia-dia da roda de capoeira para que novas gerações tenham o conhecimento e preservem os preceitos dos grandes mestres que deram a vida pela arte de gingar e tocar berimbau. Nós, que a todo momento nos esforçamos para quebrar  preconceitos, discriminações e paradigmas representamos uma coletividade, esta que é diversa e adversa; nós que temos a capoeira como profissão temos uma forma de enxergar a vida e ganhar o sustento. A capoeira na sua maneira de ser  reforça nossa existência a todo momento fazendo seguir em frente, mesmo diante das dificuldades.
Mas alguém pode perguntar: essa capoeira não tem problemas é tudo certinho?? sim , tem seus problemas, seus desafios como qualquer coisa na vida. No entanto, ao ter problemas ou ser desafiado a capoeira ensina, conduz, prepara o capoeirista na sua forma de ser e estar no mundo.
Assim é nossa vida:uma bagagem de experiências e vivências movidas pela ginga; é meu mundo capoeirístico movido a leituras mil das pessoas e da roda: é uma maneira de enxergar o mundo! E nessas andanças algumas coisas vamos deixando para trás, que não me serve mais!!O tempo passa e vamos nos fazendo como pessoa e trabalhando com dignidade como qualquer outra atividade.

se vc olhar para o céu
e prestar bem atenção
Mestre Bimba vive hoje
no meio da constelação
                                  (Mestrando Charm-Sabiá)