para um bom leitor

...escrever é sempre um ato de existência.Quando se escreve conta-se o que é...A história é mais real do que qualquer explicação.A realidade do que sou está mais no que escrevo do que nas racionalizações que possa fazer. (Ruth Rocha)

sábado, 21 de maio de 2011

Curso básico 2011

É a força do desejo que faz um acontecimento se manifestar. Essa manifestação pode acontecer pelo desejo de potência, pois quanto mais potente for um acontecimento, mais ele pode se transformar ou transformar o que está a sua volta. No Curso básico, além de pensarmos em quantidade e qualidade, refletimos também na sua intensidade. A quantidade, para ser medida, necessita de uma unidade que crie equivalências ente coisas diferentes; uma qualidade busca determinar a natureza do estado das coisas, fixando-lhe uma identidade. Uma intensidade, pelo contrário, é uma percepção que depende do observador. Quanto mais ela se espalhar em um campo de visão, mais ela tem a capacidade de afetar, assim tem sido a projeção e a prática do Curso. O resultado de cinco edições anteriores equivale a um número irracional, por isso é difícil avaliar se aquele ou esse é bom ou ruim. O que acontece é que sua medida será sempre aproximada, nunca exata, nunca racional, mas sempre única e singular, sempre diferente. Diante dessa experiência nada nos faz ter certeza do feedback imediato do Outro. Mesmo que o aluno nos dê uma resposta adequada no momento, nada garante que ele concorde com a mensagem selecionada, nada garante que ele a tenha assimilado. É necessário que haja uma continuidade de comunicação e uma sequência de seleções, é preciso colocar em prática o que se aprende. Portanto, nosso olhar para a prática da capoeira visa elaborar um método que sirva para avaliar não só a quantidade ou a qualidade, mas, também a potência do aprendizado realizado pelos alunos em um processo de ensino e aprendizagem. Por essa via, acredito que a intensidade de alunos, principalmente àqueles que participam desde a primeira edição, é demonstrado claramente como se entrou e como saiu desse encontro. Utilizando da metáfora dos giros que o capoeirista aplica, podemos pensar que "as meia-luas giram até captar em todas as direções o máximo de forças possíveis, cada uma das pernas recebe sentidos novos ao entrar em relação com as demais".
Sejam bem-vindos ao Curso Básico- 2011. O evento vai se realizar na Academia Hot Center, nos dias 4 e 5 de Junho. Até lá...

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Capoeira e didática

A verdade é que estamos insatisfeitos com o já-sabido, já-dito, já-feito. Precisamos, sim, ser mais intensos. Agora a busca é por uma capoeira que procura o não-sabido, o não-olhado, o não-pensado, o não-sentido, o não-dito. Mas o que fazer com alguns que deram seus "pulos", desistiram da caminhada e se tornaram uns "velhos pançudos tocadores de berimbau?" Deixemos para lá...queremos distância de tal perspectiva! Podemos pensar que ensinar é uma passagem, é o intermediário entre o não-ensinar e ensinar, uma tarefa errante e sempre em movimento, entremeada por acontecimentos.Saímos do papel de juíz ou controlador para decidir, combater,multiplicar, enriquecer as forças, podemos fazer existir. Para isso acontecer precisamos mudar práticas, formas de pensar, formas de agir. Ao transpor essas idéias para a didática percebemos que nada garante que a transmissão do professor seja literal e imediatamente assimilada pelo aluno. Penso que um professor precisa estar sempre ensaiado e preparado, ser uma fonte de inspiração para seus alunos, um companheiro de viajem. Ele precisa amar o seu assunto, porque só ensina o que ainda não se sabe, o que ainda se pesquisa. A roda de capoeira é um encontro pedagógico, é o lugar onde se ensina o que é ainda um problema, o que ainda precisa de solução. Nesse caminho temos a didática que é vista como "fazer aprender" ou como "a arte de ensinar";  a idéia de diálogo como um jogo de perguntas e respostas influencia enormemente esse conceito. Quando esse tipo de comunicação não acontece há uma "falha"; pode estar no ambiente, nos receptores, nos emissores, nos meios de comunicação ou na própria mensagem, a falta de didática. Essa "falha" deve ser minimizada a qualquer custo, a linguagem que se utiliza deve ser representacional, ou seja,a existência de  um código comum e estrutural que deve ser conhecido por todos. No caso da capoeira esses códigos transbordam em múltiplas linguagens: a oral, visual, corporal, escrita, musical ou teatral. São significações universais. Por essa via, a roda de capoeira sob um agenciamento pedagógico demonstra como se entrou e como se saiu desse encontro de camaradas.