para um bom leitor

...escrever é sempre um ato de existência.Quando se escreve conta-se o que é...A história é mais real do que qualquer explicação.A realidade do que sou está mais no que escrevo do que nas racionalizações que possa fazer. (Ruth Rocha)

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

FELIZ 2013!

Quero começar agradecendo aos leitores desse blog pelo acompanhamento e permanência  na leitura dos textos exibidos  ao longo do ano. Com o objetivo de "capoeiristicar" ações práticas e de pensamento, este blog tornou-se um caleidoscópio de reflexões onde cada movimento dado com o corpo, pensamento e coração, possibilitou-nos trazer para o registro escrito parte do que sentimos no universo da capoeira. O misto de poesia e filosofia, o olhar cotidiano, bem como a lente pedagógica e sociológica transbordaram e se encarregaram de cultivar o fazer capoeirístico para além da roda. Embora muitos se esforcem para entender algumas postagens, o jogo de metáforas deve permanecer para provocar no estimado leitor a busca de significado e sentido em outras áreas do conhecimento por meio de leituras,
discussões e a superação do senso comum. Sabemos o quanto que os saberes  das coisas simples nos envolvem e ensinam. No entanto, a bandeira da profissionalização do capoeirista faz parte das discussões contemporâneas, portanto melhorar o argumento e a postura do capoeirista (Educador) faz parte desse contexto. As experiências de outras rodas e encontros de capoeira foram conteúdos para a prática e reflexões deste blog. O ano de 2012 foi intenso nesse sentido, a capoeira em Curitiba está maior e melhor em vários aspectos; estas significâncias dão sentido em  fazer capoeira, afrontam nossos desejos mais internos, quebra preconceitos e promove o crescimento de dentro para fora. Portanto, incentivo à todos que corram roda de capoeira, assumam tais desafios, monitorem constantemente sua vaidade e mantenham o entusiasmo e a paixão pelo que fazem. Estejam sempre preparados!Estudar, ler, ouvir, questionar, observar, treinar constituem o processo da preparação! Por fim, agradeço aos meus alunos e amigos pela emoção compartilhada nas rodas da vida. O milagre acontece todo dia, seja no canto de um passarinho ou vento que sopra na cara, seja no toque de um berimbau ou no corpo que simula e dissimula.
Que o Deus de cada um  ou Deuses continue iluminando o caminho de todos para o bem viver e conviver.Que venha 2013!!

sábado, 15 de dezembro de 2012

Meus pés me contaram

É sério! Algumas vezes tento me resignar, estar resolvido de que todas as situações que vivenciei com a gestualidade, técnicas do corpo, expressão dos sentimentos, percepções, conduta corporal (sociologicamente falando!) foram conteúdos suficientes para preencher o capoeira. Diante de tantos anos de prática, a confirmação de inscrições corporais que circunscrevem na roda da capoeira estão inseridos em uma rede complexa de correspondências entre a condição humana e a natureza que o cerca. Portanto, a capoeira como prática social é mediador privilegiado e pivô da presença humana, o corpo está no cruzamento de todas as instâncias da cultura é  o ponto de atribuição por excelência do campo simbólico. Afinal, que corpo é esse? O corpo é um significante, ele cristaliza o imaginário social, provoca as práticas e análises que continuam explicar sua legitimidade, a provar de maneira incontestável sua realidade. As maneiras de consentir ou de negar, movimentos da face e do corpo, direcionamento do olhar, variação da distância que separa os jogadores,maneiras de tocar ou evitar o contato etc. referem-se às ações do corpo. Além disso, há as interações que implicam em códigos, em sistema de espera e reciprocidade aos quais os jogadores se sujeitam. Não importam quais as circunstâncias, mas uma certa etiqueta corporal é usada e o jogador a adota espontaneamente em função de normas implícitas que o guiam. Várias são as emboscadas que espreitam o desenvolvimento ordenado da etiqueta; conforme os interlocutores da roda, seu status e o contexto da troca, eles sabem de antemão que tipo de expressão podem adotar e, algumas vezes desajeitado, porém eficiente. No entanto eu não vi,  meus pés me contaram!

domingo, 2 de dezembro de 2012

Vai profe...!

Ainda que a instituição escolar seja contraditória em seus aspectos educacionais, esta se mantém como espaço/lugar para aquisição do conhecimento científico e reflexão dos saberes. Embora alguns professores estejam reproduzindo a forma como aprenderam os conteúdos de forma tradicional e conservadora há os educadores comprometidos com sua formação no sentido de acompanhar e aperfeiçoar as ligeiras mudanças que acontece em relação ao ensino-aprendizagem dos pequenos. As estratégias pedagógicas estão mais contextualizadas, é relevante o aspecto sócio-cultural de cada criança no ensino dos conteúdos. 


                                      

Para exemplificarmos, temos a CAPOEIRA como estratégia e possibilidade de ensino. Esta arte-luta-dança  deve ser vivenciada e analisada a partir de suas próprias mudanças, de sua leitura histórica, de seus condicionantes e de seus praticantes. A capoeira na escola adquire novos contornos, novas configurações sem perder seus elementos historicamente consagrados. Segundo FALCÃO (1996,p.143) "A capoeira na escola, em suas múltiplas abrangências, deve primar por uma interdisciplinaridade criteriosa, contemplando todas as áreas com as quais apresenta interfaces". 


                                      

A exemplo de um professor que tem a sua prática a busca constante de formação, o profissional de capoeira comprometido com a valorização da capoeira enquanto prática educativa deve conhecer não somente suas técnicas e rituais, mas seu processo histórico. Assim como na escola, historicizando a capoeira é possível ter uma leitura crítica percebendo "suas contradições intrínsecas e extrínsecas" FALCÃO (1996,p.73). Atualmente o cultivo dos fundamentos da capoeira atendem as necessidades e exigências dos alunos. A conteúdo da capoeira no contexto escolar rege uma prática pedagógica que procura fugir de posturas cristalizadas. Embora esteja vinculada ao movimento humano (Educação Física), outras áreas do conhecimento estão disponibilizando a capoeira para passar conteúdos como estratégia pedagógica para gerar aprendizagem nos alunos. Portanto,  a prática da capoeira não pode "ser interpretado como um ato puramente mecânico,mas como um processo onde se interpenetram as dimensões cognitiva, sócio-afetiva e psicomotora do ser humano- o movimento de corpo inteiro" FALCÃO (1996,p.141).


   
Fonte: "A escolarização da capoeira" (José Luiz Cirqueira Falcão)

domingo, 18 de novembro de 2012

Guerreiro iluminado, quem é você?

O guerreiro da lida diária NÃO é desprovido de ternura, amorosidade e sensibilidade. O combate que se objetiva nesse mundo contemporâneo é contra nós mesmos, em cada guerreiro existe um conflito interno. O simbolismo do metal contra as nuvens (espada empunhada) nos confere a luta diária de existirmos realmente como humanos em favor de outros humanos. O grande guerreiro mudou, é outro, mas igualmente verdadeiro.Sua missão é contar, recriar, inventar fatos de nossas vidas. Tais pernas sob as pregas de um abadá conduz o guerreiro iluminado contornar gestos de grande significado e sentido para a sua vida: o corpo embebido no gesto se deixa tomar de uma coisa e segue melhor estruturado,preparado. São as experiências de vida que o fazem assim: a curiosidade de criança, a reflexão e o desprendimento de qualquer tipo de violência física,verbal, simbólica. Portanto, nossos pés capoeirísticos tido como nossa espada empunhada atravessam o tempo da vida conhecendo texturas e acompanhando formas de ser e existir de outras pessoas. Às vezes não percebemos que transmitimos com os pés nossos mais desconhecidos sonhos e pesadelos. Por fim, o guerreiro da lida, face a sua área de combate viaja com o corpo de alto a baixo; os pés se enfurecem, não se abandonam, porém formam encantamentos. E a voz?Para onde ela vai? A voz negocia com pessoas distantes e lugares nunca vistos. Quem é você, guerreiro?

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Novos olhares!

É possível ver uma redefinição na forma ou maneira de jogar capoeira nos dias atuais.Há outras abordagens de ouvir, entoar e praticar tal bela arte. A profissionalização do capoeira caminha para dias mais profícuos e instigantes fazendo que este profissional objetive e orquestre sua capoeira para os mais variados públicos, seja a terceira ou melhor idade, as crianças ou pessoas com necessidades especiais. A roda propriamente dita talvez não seja mais o fim único de uma proposta pedagógica e cultural, mas a INTENÇÃO de quem está no comando. É bem provável que tal proposta possa desagradar ou ter qualquer espécie de conflito para os capoeiristas que só querem jogar capoeira. Sabemos que a capoeira é uma arte em formação e sua dinâmica por muitas vezes é difícil de acompanhar. Para tanto é necessário acompanhar a dimensão da arte de gingar; ela deseja transformação do praticante, contribui para nossa formação, repele preconceitos, não admite corpo mole. Assim como a literatura, a capoeira nos provoca, redimensiona nossas ações, amplia nosso olhar para o mundo e para as pessoas a nossa volta; a leitura de uma roda de capoeira nos faz entender a dimensão humana. Os novos olhares propõe um profissional da capoeira que atenda às necessidades do outro, que seja sensível às mudanças e   que a afetividade sobreponha sua prática ou método de ensinar. A observação diante dessa abordagem é uma crítica naquele velho dilema que "pau que nasce torto nunca se endireita". Não acredito muito nisso, pois já cantava BOA VOZ (vol.2) dizendo que "... se treinar, você se ajeita".
Façam boa lida com capoeira daqui pra frente, salve!

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Trezentos e sessenta graus de infinito

 Eis o prazo que te deram para ser feliz! Você "dos Reis" às vezes pode não imaginar que a sua existência é uma espécie de alegre surpresa, prazer e devoção crescente. A propósito  amigo leitor, conto-lhe que a "dos Reis" tem uma graça caricatural que pode diverti-lo com uma multiplicidade de observações. É bem verdade que contrabalança com ternura e emoção comovente (tudo isto acompanhado com uma agilidade de espírito). Entre "CHINS","DÊS","DESSAS" e "ANDRESSAS" surge esta "dos Reis" que é das rainhas, dos santos e de todos nós. Como todo o ser humano sua missão é perfurar cegueiras, dissolver obstáculos e quem sabe tirar o mérito do caos de nossos dias. Nesta folia "dos Reis" podemos ouvir ao fundo um requiém, cantigas de roda, estrondo de atabaques e se bobear uma ligeira cabeçada em uma roda de capoeira. Sim, nesta pessoa a alma canta...
CHIN, sua felicidade é também a nossa! siga em frente e,
                 "PALAVRA-TE"




sexta-feira, 10 de agosto de 2012

AONDE O NADA?

Deste lugar os corpos se atraem e distraem/Se ofuscam e lançam mãos e pontapés feitos raios de luz/Deste lugar sobe-descendo,entra-saindo/Arame e espírito perfazem a linha tênue da roda/Há um descontínuo compasso em que a meia-lua é vilã/Sobram cantorias que dizem quem foi, é ou nunca foi/Segredos que jamais serão revelados, pois a vontade é grande mas a confiança é tacanha/Tem "bicho farso" ou audácia de mandingueiro/Deste lugar existe o sujeito aguerrido e também aquele que a arte jurou morada, mas se decepcionou/O canto adocicado que traz na memória lembrança de outros mundos-tempos/Brota um amor sob novos verbetes, acepções e locuções/Mumunhas e aperto de mãos é um barato/Prazer coletivo e fruição solitária/Deste lugar o meio é o começo e o fim da negociação ainda que fique para outro dia/Sobram corações apertados e orações várias para diálogos desprotegidos/Sem limite de espaço o corpo ousa/Pluralidade de intenções, qual é a sua?/Desdenhável é ficar a par desse contexto/Deste lugar   a razão e a emoção são crianças brincando na chuva/Na capoeira desenha-se e tangencia-se o que faz sentido/é o desejo do outro que está em mim...Portanto, aonde o nada?

                                                                                                                                 by Professor RATO

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Notas de inverno sob impressões de verão

A voz e a escuta ensaiam memórias, saberes, músicas, linguagens, jeitos e trejeitos em frias noites curitibanas. Há um certo número de almas que se engalfinham em nossas rodas de capoeira sob várias intenções: se movimentar, cantar e tocar um instrumento, encontrar os amigos, enfim, vencer o frio que tem feito ultimamente. Sim, joga-se e treina-se muita capoeira em Curitiba! Tal inverno não tem sido empecilho para se dedicar regularmente a arte. Os alunos que de alguma forma encontram motivação e inspiração na capoeira tem objetivos reais e verdadeiros para a sua vida. Tornamo-nos testemunhas de um espaço familiar no qual crescem uma menina, um poeta, um cantador etc alimentando-se um do outro, das emoções e mistérios que a vida e a distância proporcionam. Éh,a capoeira talvez seja uma fonte de alternativas em trânsitos permanentes à procura de originalidade que só a imaginação faz perceber o que pode ser. Mesmo em noites frias estamos esbarrando em algo para ser livre, revelamos cumplicidade e comprometimento consigo e com os outros em uma procura desenfreada de correlações, pulando fronteiras e desafiando a si mesmo.E qual é a consequência do que estamos falando?A procura de uma nova abordagem, a comoção e o colorido da vida. Com o nariz gelado e as bochechas cor de rosa é possível averiguar diálogos mais duradouros do capoeira das noites frias.

domingo, 24 de junho de 2012

pausas e silêncios extraordinários

Ouvir e perceber o fôlego, a voz e a mudez dos alunos é necessário para uma avaliação do que estão sentindo e quais os signos e significados que trazem em suas trajetórias de vida. É processo dificultoso, mas hoje é possível perceber muito mais o que eles não quiseram dizer do que aquilo que disseram. Conseguir ouvir o entrefôlego do aluno é um aprendizado. Abruptamente o assunto do TEMPO é recorrente, porém nosso companheiro de sonho e vigília. As novas tecnologias diminuiu nossa compreensão para isto, essa nova velocidade é aparente, e é aí que sobressai o consolo do mestre, educador: seu ritmo não é o das instituições; a oralidade, o compasso e o ritmo do outro é o tempo do professor. A profundeza da alma sendo dita e redita, recitada, mesmo que em silêncio é o trem da História na prática de todos aqueles que se dispuseram a conduzir e ensinar. Para tanto, creio que o CURSO não seja antídoto para nada, talvez seja um remédio singular. Mas ele, o professor, no íntimo, espera que esse remédio, que ele manipula e toma, seja também ingerido por todos. Tal evento fez aprofundar o seu significado com o passar dos anos. O que sei "eu" nesta fase da vida?A capoeira é um alento.Tive oportunidades, tanto jovem quanto mais velho de me sentir perdido e exasperado até me lembrar que a capoeira estava aqui, ao meu lado, sob qualquer condição! uma espécie de cão afetuoso, fiel que me acompanha e me guia. O que sei nesta fase da vida é que um livro vai aparecendo, mostrando suas formas por trás de poucos versos. Percebi a necessidade de ampliar uma pequena fotografia-quem sabe eu pudesse assim enxergar outras paisagens através da ampliação. Mas o maior trabalho não é escrever, o maior trabalho é jogar esse rebento ao mundo!

Agradeço a  todos pela entrega e colaboração no CURSO-BÁSICO!

Contribuições à prática pedagógica- parte II

MODOS DE APRECIAR
MODOS DE TOCAR


MODOS DE BEM QUERER
MODOS DE REAÇÃO


MODOS DE JOGAR CAPOEIRA
MODOS DE INTERAGIR



MODOS DE AGIR SOBRE...

Contribuições à prática pedagógica- parte I

IMAGEM

palavra                    
paisagem    contempla
cinema             assiste
cena                       vê
cor                enxerga
corpo            observa
luz               vislumbra
vulto                 avista
alvo                    mira
céu                 admira
célula            examina
detalhe                nota
imagem                 fita
olho                    olha

                                                                 *ARNALDO ANTUNES

quarta-feira, 6 de junho de 2012

CURSO BÁSICO-2012

                A cada momento histórico cria-se necessidades objetivas de formação do  grupo humano, neste caso a comunidade capoeirista e simpatizantes. Refletir sobre a formação do capoeirista contemporâneo e o próprio cenário da capoeira exigem, necessariamente, a consideração dos pressupostos que fundamentam as raízes do corpo deste conhecimento, buscando assim caminhos mais sólidos à reconfiguração da nova e necessária profissionalidade do educador de capoeira.
            Uma prática sustentada pela reflexão! Esta é a proposta do CURSO: menos como um plano a cumprir e mais um processo que se constrói na interação entre o atuar e refletir. Está pautado dentro de uma dinâmica circular mediada por avaliações contínuas e por uma espiral de pesquisa-experiência-ação.
            Cabe a este trabalho propiciar um redirecionamento às configurações que deverão desencadear além de um processo reflexivo, o coletivo e inovador, superando a prática pela prática da capoeira de forma limitada, sem perder a perspectiva de estar em sintonia com os compromissos perante as demandas da capoeira.
            Para tanto é possível desenvolver o CURSO na busca de três dimensões importantes para nossa prática na capoeira:

1)- Quais as intenções que podemos ter em relação a este saber;
2)- Como as práticas têm se configurado na realidade histórica;
3)- Quais poderiam ser os princípios para os jogos de Benguela, São Bento e Iúna.
            Finalmente, diante do enfrentamento de exigências colocadas pelo mundo contemporâneo, são requeridas dos educadores novos objetivos, novas habilidades cognitivas, capacidade de percepção de mudanças. Assim, repõe-se a sugestão do CURSO para complemento da formação dos capoeiristas implicando o repensar dos processos de ensino-aprendizagem e das formas de aprender a aprender, a familiarização com os meios de comunicação e o domínio da linguagem informacional bem como capacidades criativas para análise de situações novas e cambiantes.


            














Dias 16 e 17 de Junho estaremos na Academia Hot Center para mais uma edição do CURSO BÁSICO !
Até lá...

terça-feira, 22 de maio de 2012

Berimbau vivo

...meu berimbau, 
tem espírito e tem cor
seu espírito é o arame
sua cor é o tocador! 
          (Mestre Eziquiel-in memorian)



                   

domingo, 13 de maio de 2012

Ressignificando



O olhar intensivo e extensivo posto sobre os corpos das crianças, jovens e adultos nos permite indagar sobre os significados, no momento e nesta cultura. O corpo tido, por muitos como estável e universal pode servir indicador definitivo e conclusivo das identidades. Mas o corpo também escapa: ele é maleável; fala mil línguas, tem muito significados...ele engana e ilude. Um processo que, ao supor "marcas" corporais, as faz existir: inscreve, instaura diferenças representados e interpretados culturalmente. Tais marcas devem nos "falar" dos sujeitos. Assim, esperamos que elas nos indiquem, sem ambiguidade, suas identidades. A capoeira claramente emerge como resposta da própria cultura à saturação de modelos ou práticas passadas, o que implica a compreensão da dinâmica histórico-cultural das práticas corporais. Evitando a dicotomia entre corpo e mente, o foco do olhar capoeirístico deve mirar-se a questões que se manisfestam explicitamente através das práticas corporais, entre elas: preconceito, relações de gênero, papéis sexuais, violência, consumismo, drogas etc. Afinal são questões do modelo de sociedade em que vivemos, estão expostos nos sujeitos em nossa cultura, em nossos alunos, são novas formas de relação e de convívio social. Quando temos clareza de nossa prática na capoeira superamos sua "prática pela prática", buscamos sua legitimidade, diferenciamos de uma perspectiva "tarefeira", assumimos como profissionais de um saber. Para tanto, senhores educadores, os corpos estão a todo momento querendo nos dizer alguma coisa de sua dimensão humana.  

sábado, 28 de abril de 2012

Fruição e prazer em uma roda de capoeira.

Prestes a completar sessenta (60) anos de idade e uns 200 anos de vida, o Mestre Sergipe nos presenteou com sua  alegria e descontração em nossa roda ontem à noite. Com requintes de elegância e muita mandinga, o  Mestre transbordou muita capoeira para todos que lá estiveram e ainda garantiu uma performance invejável do bom baiano no samba de roda. Diante disso, me passou uma grande lembrança, pois as primeiras rodas que assisti foram as rodas do Mestre Sergipe. No começo dos anos 80 me enveredava nas rodas que aconteciam às sextas-feiras no "Centro Paranaense de Capoeira Regional" que ficava na rua Pedro Ivo, centro da cidade de Curitiba. Naquele tempo vi o auge da performance do Mestre Sergipe. Presenciei grandes rodas. Eu,(um piá com seus onze anos de idade!) sentado naquela arquibancada de madeira já sentia o que hoje em dia é mais claro: a fruição e o prazer. A fruição se caracterizava na espera  em ver aquele Mestre jogar capoeira (ele sempre deixava a sua apresentação para o final da roda!), então quando ele agachava no pé do berimbau...eu respirava,rs!O sentimento na mensagem, a emoção de seus alunos em estar perto dele e a necessidade de tocar no mestre era um prazer passado até mesmo para o público que assitia as rodas, especialmente para mim. Ontem senti estas coisas renovadas, o Mestre Sergipe também está renovado. O privilégio de fazer um jogo com este e tantos outros mestres que admiro é indescritível, a fruição e o prazer é próprio de cada um, é difícil de explicar. Obrigado Mestre pelo axé.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Arame contra as nuvens

foto by TICA
Parafraseando a belíssima musica de Renato Russo "Metal contra as nuvens" temos nossa forma de desencadear nossos sentimentos e  emoções na capoeira, e cada um a interpreta e sente da melhor forma possível seja criticando ou refletindo sobre esta forma de encarar o mundo. Podemos ainda, fazer a nossa auto avaliação! Que sentido me faz a capoeira? O que me acrescenta? Preciso disso? É formativo? É saudável? São perguntas existenciais que a qualquer momento nos atormentam, mas devemos sempre colocar em questão. Diz Mestre Acordeon, famoso discípulo de Mestre Bimba "O jogo é a essência da capoeiragem assim como o existir é a essência da vida. Adestra-se o corpo e se aprende as técnicas, rituais e etiqueta da capoeira para se poder entrar e sair das rodas com dignidade.Pratica-se a musica para se estabelecer a conexão de movimento e ritmo, e se criar o clima necessário para o melhor desempenho no jogo.Estuda-se história para respeitar a herança cultural de nossa arte e se atribuir sentido e profundidade à prática. Aplica-se a sua filosofia para se enxergar as armadilhas do dia-a-dia e melhor se poder confrontar as próprias emoções, tornando o jogo da vida um contínuo processo de desenvolvimento pessoal" (1999,pg.91)
 Seja no jogo jogado ou no jogo cantado a sabedoria sempre nos alerta que a capoeira é um amontoado de instantes mágicos, um jeito de ser e estar no mundo em plena conexão com a natureza.Felizmente com o berimbau empunhado também somos "...metal,raio,relâmpago e trovão!"
Trecho do livro "Água de beber,camará!", de Bira "Acordeon" de Almeida.

domingo, 25 de março de 2012

Pelo viés da metáfora

"Capoeira é tudo que a boca come" (Mestre Pastinha). Esta consagrada frase nos coloca diante de um ato divino: diante da "comida" estamos perante um "recebimento". Isso  demonstra que além da cultura e a religião, não apenas indicam o que pode e o que não pode ser ingerido, pois estabelece prescrições e proibições, além de distinções entre o que é considerado bom e ruim, cujas classificações, apontam para hierarquias culturais e merecimento. Aqui, a narrativa da memória do gosto atem-se por meio da comida ingerida: o que a boca come expressa alegrias, tristezas, frustrações, lembranças, dúvidas e buscas, talvez um jogo contínuo de troca de confidências e aceitação. Se a capoeira é tudo que a boca come,o próprio capoeira opta por não comer tudo, pois há uma escolha, uma seleção do que é considerado comida.Isto acontece em qualquer cultura. A história dos alimentos remete a ideia das origens reais ou simbólicas das civilizações humanas. O banquete cultural é mais simbolizado pelo ritual de compartilhamento do que consumo em si, mas façamos o seguinte: jogamos tudo numa mesma panela (comida, literatura, idéias e significados). Nem é preciso cozir muito para perceber que é dessa mistura que se forma um dos campos que mais permite a manifestação dos rituais à mesa e a importância da comida na formação da identidade de um grupo. Quando se trata de comida as palavras conseguem provocar mais do que reações orgânicas. Portanto, bon appétit!!

domingo, 11 de março de 2012

sexta-feira, 9 de março de 2012

já passou aquele tempo...



Imaginemos fechar os olhos por algum momento e, ao abri-los, constatar que não há no Universo qualquer vestígio da figura feminina. Um mundo de encantos (sol, areia,cachoeira,flores), mas em uma tal melancolia. Ali em um canto qualquer, Deus a matutar, sentiu a necessidade de acrescentar um delicioso feitiço. E então, o encantamento de tudo: o sol mais dourado, flores multiplicando perfumes a beleza e harmonia imperando em nossas rodas de capoeira. Sem a mulher, parece que tudo nos falta. Temos olhos, mas não temos paisagens, temos ouvidos, mas os cantos emudecem, temos tato, mas apenas para sentir frio. Ah! Mas se ela vem toda de branco,toda molhada, linda, despenteada,que maravilha, que coisa linda é o meu amor!Não dá para imaginar o mundo sem elas. Capitu com  olhos de ressaca, rogai por nós!!Gabriela, cravo e canela, rogai por nós!!Joana D`Arc com sua coragem, rogai por nós!!Tereza de Calcutá envolvei-nos com suas asas de anjo...e Afrodite, entretenha-nos com suas artimanhas. Que assim seja. Valeu lindas e maravilhosas mulheres de nosso grupo por todos os dias colorir nossas rodas de capoeira.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

bebendo no gargalo, de novo

Ainda que a mensagem de um novo tempo na capoeira esteja entrecruzado em algumas amarras da vida, penso que resta giz entre as unhas para que a gente possa escrever outras histórias vividas e cantadas na roda. Haverá sempre um tempo de correntezas e águas calmas, portanto é preciso estar atento. O aqui e o agora já foi mais fácil; o jogo jogado, o impulso que vence a resistência do ar... Segue para onde os movimentos de pernas e braços de agora em diante?Jamais me libertarei dessa cena, cada tempo é um tempo.Não há decifrações. Há os encontros e experiências enraizadas sob o som do berimbau em ritmos soltos e securas contidas.Tudo em busca do entendimento acrescido de estranhamentos, ironias, diálogos e pitadas de risos, talvez sob temas movediços e instáveis.Puro viver!Cada começo é um desenlace, uma luz no fim do túnel. Eis a mão inacabada que ainda faz  percurtir o som do arame,do aço. Aqui a alma se instala, respira eternidade. 
                                                     "vento que venta lá, venta cá"

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

jogar e brincar a capoeira como espaço de reflexão

O jogo está entrelaçado ao próprio desenvolvimento, presente em todos os momentos do ciclo vital. É evidenciado em culturas e ambientes variados bem como uma expressão que fascina em diferentes contextos de uma geração à outra. A prática da capoeira se destaca enquanto exercício social em contexto educativos. Envolve valores, regras, reciprocidade, competição, mas fundamentalmente favorece a aprendizagem e desenvolvimento no indivíduo.Durante a infância, as tarefas em grupos assumem grande importância na construção da cooperação. Os jogos e brincadeiras da capoeira promovem descentração,cooperação e caracteriza-se como possibilitadores de reelaborações de atitudes da criança mediante novas experiências. A capoeira na educação infantil permite vivenciar a experiência em grupo de maneira solidária Neste caso, o educador deve objetivar mudanças de comportamento criando situações reais nas quais ela, seja conflitada na sua forma de ver o mundo e interpretá-lo diante da realidade que se apresenta. Portanto, o brincar possibilita o reconhecimento da realidade e de significação vividas pela criança, além do encontro consigo mesma, seus pensamentos, sua emoção, suas potencialidades, seus limites.No entanto, o educador deve estar atento à banalização da brincadeira na sociedade contemporânea. O discurso do "lúdico" ou a estratégia pedagógica redentora e eficaz a todos os problemas relativos às crianças estão no mote de muitos educadores. Além disso, a infância contemporânea ainda é aquilo que os adultos permitem que seja. Há uma falsa idéia da proteção da infância: aniquila a criança e a  obriga a ser a reprodução da infância que tiveram os adultos. Caro educador de capoeira, analise em sua prática as interações sociais presentes no brincar, pois é preciso considerar que há um emaranhado de valores. As situações de interação favorecem a observação de estereótipos e preconceitos explicitados pelas crianças porque evocam as relações delas com os objetos de conhecimento e com os outros.