para um bom leitor

...escrever é sempre um ato de existência.Quando se escreve conta-se o que é...A história é mais real do que qualquer explicação.A realidade do que sou está mais no que escrevo do que nas racionalizações que possa fazer. (Ruth Rocha)

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

à sombra de meu pai

Em meio à solidão eu gostava de ouvir suas histórias, aqueles sempre mesmos causos me preenchiam a alma e, por vezes,  ouço a sua voz rouca urdida pelo cigarro traçando sorrisos e zombando dos próprios acontecimentos. Aquele homem alquebrado pela vida, ora esperançoso por dias melhores, ora resignado pelas circunstâncias que a própria vida lhe impôs soube, à sua maneira, driblar dificuldades existenciais.Mas era doloroso para mim observar naquele homem rígido na sua maneira de ser  e mãos fortes  desaparecendo aos poucos.Meu pai nunca foi de falar de sentimentos, mas eu amava aquele homem.Nos últimos tempos tornara-se um prazer terrível não deixá-lo em paz, gostava de atravessar a cidade somente para abrir o portão de casa e vê-lo sentado em um banco, parecia que me esperava sempre.Eu não sabia que obedecia à velha tradição- a sabedoria daquele que me preparou para a vida.Embora tudo isso que lhes conto seja verídico, seria lamentável  que tivesse caído em minhas mãos a tarefa de salvá-lo.Eu era a pessoa menos indicada,infelizmente.Seu MIGUEL faz muita falta, não tenho a sua força interna que ele mantinha comigo e meus irmãos.Mas me inspira muito!a sua voracidade pela vida real tardava em mim e eu...inábil com as sutilezas e desafios da vida.Só muito tempo depois vivendo tais experiências, estava tirando " a moral das histórias".Num sonho, do qual seu sorriso fazia parte, eu transpunha o portão de casa a me refugiar junto a meu pai, e o coração imprudente pôs-se a bater alto demais sob o risco de acordar o mundo a minha volta.Com a boca seca, ali fiquei na frente dele sem coragem de acordar.Ele me olhava manso e curioso.Disfarcei olhando o teto,o chão, as paredes, e mantinha a mão estendida porque não sabia como recolhê-la.
A benção meu pai!


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A Capoeira no Ensino Fundamental: algumas reflexões.

Diante da prática da capoeira com alunos de 11 a 14 anos de idade na instituição escolar é possível perceber que a corporeidade é trabalho secundário na formação desses estudantes.Há na maioria dos jovens que estão no  Ensino Fundamental 2 (6º ao 9º) demandas socioemocionais advindas da idade, família e contexto social.A pressão ou conflito familiares, busca por identidade e pertencimento,hormônios, competição exacerbada provocam  um turbilhão de sentimentos que geram, por vezes,enfrentamento com o espaço e público escolar, especialmente na lida com os  professores.


Portanto, como a prática da capoeira pode contribuir para a formação desse público?Consciente do contexto escolar em que o professor de capoeira está atuando, há um marcador imprescindível e necessário que se deve desenvolver com o tempo,diálogo, formação e respaldo das instituições: a blindagem emocional.


Envolvidos com os processos de ensino e aprendizagem dos estudantes somos naquele período, "esponjas" que absorvem todo tipo de situação emocional ou não que, diante de situações de enfrentamento ou conflitantes pensamos ter uma larga sabedoria da vida e formação para atender o desejado e o indesejado.No entanto quantas vezes nos sentimos um lixo quando o aluno não aprende ou quando não conseguimos lidar com alguma situação que nos foge ao controle!


 No fundo o professor é sempre o culpado pelo não aprendizado e interesse pelo conteúdo proposto.Interpretar um xingamento, falta de vontade ou distanciamento do estudante como pedido de socorro implica em exercício emocional e diálogo permanente pelo professor que nas intempéries da vida se desdobra para ser esclarecedor do caminho e luz no fim do túnel.Demanda a manutenção de estímulo e motivação pelo exercício profissional (e espiritual),demanda sentir-se vivo e pleno! 


Pensando capoeirísticamente, tendo a roda de capoeira como metáfora da vida onde há constância de interações e interpretações é preciso encaixar a colaboração e inclusão do que não se vê somente pelos olhos, mas pelo coração. 



A prática da capoeira na escola tem o eixo socioemocional como desafio, pois prepondera em perspectivas positivas para contestar uma sociedade extremamente competitiva,individualista e excludente.Perceba!No fazer da capoeira temos o outro  para compreensão,interação e superação das demandas do dia a dia. Nossa matéria-prima é o ser humano.
Força e Fé Professor !!!

quarta-feira, 19 de julho de 2017

PROFESSOR OU "TIO DA CAPOEIRA" ?

Ainda que algumas escolas e pais insistam por hábito ou cinismo nos chamar de "tio da capoeira" mais devemos viver integralmente o movimento da docência como sujeitos críticos dos processos de ensino e aprendizagem.Nossa ousadia vai além das condições que conhecemos, pois ensinar é profissão que envolve tarefas:planejar, conhecer, estudar, escrever,ler e aprender...enquanto TIO é viver uma relação de parentesco-postiço.


A desvalorização profissional é representada pelo hábito ou cinismo numa tentativa de amaciar sua capacidade de luta, afinal definir-se como PROFESSOR é rebelar-se, brigar, fazer greve.Ser PROFESSOR é ter responsabilidade ética,política e profissional que lhe coloca o dever de se preparar, de se capacitar, de se formar.


A experiência de professor de capoeira bem vivida e percebida requer formação permanente. Ao fazê-lo  a criticidade é prática constante.Quanto mais  esse profissional se deixe cristalizar pelo parente postiço (a ilusão de adocicar a vida do professor) tanto menos pedagogicamente atua e contribui no fazer educativo.


A reflexão sobre o profissionalismo na capoeira ,sobre a prática é retomar um ponto ou outro instigado pelo leque cultural aberto a novas reflexões e experiências, invariavelmente desafiadoras.Não importa se a escola é progressista ou reacionária, o professor deve se definir sempre como professor!
Valorize-se!!!


sexta-feira, 19 de maio de 2017

O CORPO SOCIAL

Embora seja gritante a corporeidade na capoeira podemos pensá-la para além das generalizações biológicas, especialmente na escola. As vivências da capoeira são outras, com diferentes aprendizagens que não coincidirão com a cultura corporal oficial.



A capoeira, tendo outra materialidade de viver e sobreviver, questiona as didáticas e teorias de aprendizagem e desenvolvimento humano incorporando outras infâncias, outras corporeidades. Entre as infinitas formas de viver a corporeidade, a capoeira se revela carregando linguagens, leituras de mundo e de si mesmos. 


Na mesma direção, identidade e subjetividade constroem-se por meio de processos que se realizam em seus corpos dando significações sociais. A arte da ginga abrange o amplo e rico campo da cultura que promove a expressão de práticas expressivas e comunicativas em que capoeiristas externalizam pela expressão corporal. Tal manifestação se contrapõe ao movimento considerado mecânico e neurológico.


Podemos pensar na dimensão afetiva do movimento para articular campos de experiência educativa para além de conteúdos estanques. Uma ação pedagógica que contemple linguagens gestual, corporal, oral, sonoro-musical, plástica, escrita, contação de histórias podem orientar os objetivos gerais a partir da mediação crítica e criativa dos educadores de capoeira.





Dada a amplitude do propósito, podemos partir dos modos de pensar, agir, falar, enfim, de significar seus mundos sociais, especialmente as crianças. Elas têm outras finalidades para suas narrativas e podem ampliar nossa percepção de mundo.

domingo, 5 de março de 2017

Fina escolha !

As reflexões borbulham e firmam o compromisso de continuarmos curiosos e dispostos a reinventar nossa prática buscando materializar nossos desejos e inquietações.Quando concebemos Capoeira e Educação estamos querendo visualizar soluções, buscar alternativas e possibilidades diante do mundo que nos apresenta: grupos de WhatsApp, colegas de trabalho,sites ,livros e a Capoeira como possibilidade educativa dentro e fora da escola.Há técnicas inovadoras experimentadas por bons Educadores de Capoeira em condições ideais por todas as partes deste país, temos boas experiências educativas no tema.Contudo, sabe-se que há resistência e obstáculos de colocar e manter os desejos em pé (profissionais ruins tem em todos os setores da sociedade), mas temos profissionais da capoeira com projetos excelentes, além disso a coragem de se abrir, ouvir e melhorar sua prática...de aprender!




Mas o que a escola espera da capoeira?A capoeira em seu leque de possibilidades pode fazer a interdisciplinaridade com as áreas do conhecimento e temas transversais objetivando aprendizagens significativas.De que forma?A princípio uma prática da capoeira na escola deve tomar um cuidado para não se descaracterizar em função da industria cultural, bem como ditames mercadológicos e currículos engessados. Outro aspecto negativo é a prática de acomodação por educadores que se rendem à receitas prontas, abarrotando uma aula de capoeira personagens e heróis infantis repetindo o que a mídia faz com muita persuasão e competência em detrimento dos nossos heróis negros e toda a cultura afro-brasileira e africana.Penso que o objetivo da capoeira na escola é trazer um diferencial de conhecimento nas experiências corporais, culturais e saberes  do mundo capoeirístico, além de porta de entrada para demais culturas. Falta aprofundamento em  grande parte de educadores no que diz respeito a sabedoria da arte da ginga para fazer tais reflexões.É construtivo pensar em quais responsabilidades temos com esta ferramenta pedagógica no processo escolar sem perder a sua essência.É um trabalho que dá trabalho.
Pense nisso Educador !



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Dias iguais, não!

A beleza dessa vida está na expectativa de que o amanhã já vem.Os dias iguais que atormentavam, desfrutam agora do término, que por vezes acabou sem conversar infelizmente.Fato é que basta dessa pele, é hora de trocar.


As obviedades do ser humano que lançam suas chamas no fazer absoluto de nada dignificam um pouso na janela cantando canções e caçando algumas.Pausas de nada adiantariam se não fosse para se reinventar, marcar uma nova era e continuar fazendo história. Há neste curso verdades se desfazendo, outras se totalizando numa sociedade de inverdades.


O montante de muitas reflexões em períodos diversos se emaranham no balaio da capoeira.O tom maior percutido no arame do berimbau já deu sinal, damos volta ao mundo e o jogo da vida recomeça:é hora é hora,camará!Nenhum jogo é igual ao  outro, pois construir e desconstruir faz parte da estratégia de sobrevivência e geralmente nos apela para o inusitado,o inesperado, o sinistro.Ora luto, ora danço...eu sou o que o momento determinar!


Norteado por expectativas positivas abrimos mão do que já houvera,do que já deixou de ser,pois cada experiência é única e não se repete (como o rio de Heráclito). Dias iguais é um rio que não deságua.Bom mesmo é sentir que houve mudanças positivas mesmo que doloridas, porém necessárias em períodos críticos de transformação.


A faxina na alma também excede  nos signos do mundo capoeirístico onde pessoas vem e vão numa espécie de fluxo e refluxo trazendo em sua bagagem uma trama de sentimentos e emoções vividas nas mais diversas situações e momentos.Por vezes, as trocas nos marcam a ferro e fogo.Cabe a maré estar para peixe ou não!Entretanto a vontade de se preparar tem que  sobrepor à vontade de vencer.


Gratidão por estarmos vivendo tudo isso novamente sob outros olhares e ainda por mãos e pés diversos num fazer criativo.
Força na peruca...diria nos pés!
Bora 2017...;-)