para um bom leitor

...escrever é sempre um ato de existência.Quando se escreve conta-se o que é...A história é mais real do que qualquer explicação.A realidade do que sou está mais no que escrevo do que nas racionalizações que possa fazer. (Ruth Rocha)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

É água de beber!

"...Desde o início da sua caminhada até os dias finais da "formatura" como um rito de passagem, um aluno percorrerá uma longa distância, passando muitas vezes pelos estágios de "jogar no escuro",  " jogar na água" e " jogar no claro". Deste ponto em diante ele deverá se libertar das técnicas e se abrir para a criatividade, trocar a ênfase na eficiência pela experiência vivencial trocar os movimentos estudados pelos espontâneos. Deverá aprender a jogar a capoeira de dentro para fora , com seu coração, à moda dos  contra-mestres.Após isso, os pés do capoeira estarão cansados e machucados pelas pedras do caminho, mas o seu espírito se fará predominante para ajudar-lhe à dominar o espaço e o momento com precisão, jogando com economia de movimentos e ajustando-se ao ritmo universal que a tudo rege e comanda. Se continuar estudando a capoeiragem e explorando as fronteiras absolutas de seus limites físicos; se tiver a coragem e humildade de aceitar as condições de " jogar no escuro" de novas situações, talvez este capoeirista se torne capaz de jogar com a qualidade de um mestre abençoado pelos orixás." ( Almeida,1999, pág.101).

   
 Entenda como este  "jogar no escuro" está tão perto e ao mesmo tão distante de nossas mãos ou nossos pés.Estas palavras sábias estão apontadas no livro "Água de beber, camará! um bate-papo de capoeira" do Mestre Acordeon. É uma boa leitura onde o Mestre contorna seu caminho num  rico emaranhado de ambiguidades e filosofia...filosofia esta que nos previne das armadilhas da vida!!


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

a gente vai se fazendo...

na palestra do filósofo Mario Sérgio Cortella, ele dizia "nós não nascemos prontos feito sapato, fogão e geladeira, a gente vai se fazendo...!! Na bagagem da vida , algumas coisas têm que ficar para trás, ficaram velhas...é preciso mudar".
levo muitos ensinamentos como esse para a minha vida capoeirística e  àqueles que me acompanham. A minha trajetória na roda de capoeira é pulsante e em permanente transformação.Tenho várias fases em que me vejo mudado no sentido de repensar e jogar a capoeira conforme ela foi e vai sendo conduzida;  não é ser volúvel como dizem alguns incrédulos, é o desejo de mudança...! foi o meu oxigênio para continuar acreditando e vivendo da arte.
a inquietação é o meu ingrediente determinante; são as mudanças que procuro fazer com meu jeito de ensinar e jogar a capoeira no sentido de avançar e criar novas possibilidades.Ao estudar os movimentos e a roda como um todo passei a ter sensações diferentes e ajustar o básico sob outros olhares.É ter humildade e voltar a errar, é idolatrar a dúvida, e isso é o motor da mudança. Gente que não tem dúvida não é capaz de inovar, de reinventar , não é capaz de fazer de outro modo. Gente que não tem dúvida só é capaz de repetir, dizia o filósofo acima.
infelizmente existem aqueles que não vão mudar; ou pelo medo da mudança, ou deixou de acreditar...de sonhar...de procurar e, por não mais renovar perdeu a vitalidade!! a estagnação é um tipo de morte.
sei que é preciso coragem para mudar, é o enfrentamento do medo.Mas a mudança se faz com os audaciosos, não com os aventureiros. A  audácia é uma resistência às incertezas, pois planeja, estrutura e vai.Os aventureiros dizem "vamos que vamos e veremos no que dá".
na capoeira existe o momento de se antecipar...antecipar é diferente de advinhar." É preciso ter mentalidade humilde.Uma mentalidade moderna" ( Mario Sérgio Cortella).

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Aprendizagem e Desenvolvimento na capoeira

Existe relações recíprocas entre educação e desenvolvimento dos alunos em idade escolar na capoeira.Há de se levar em conta as atitudes do ambiente circundante, e algumas se formam no próprio processo de aprendizagem. O resultado de algumas experiências mostram que estas atitudes são o resultado de uma atividade cognocitiva dos alunos, organizada pelo educador de capoeira de modo à lhe conduzir ao conhecimento e a realização dos resultados obtidos.
Outras atitudes subjetivas conduzem a uma mudança nas relações entre personalidade e ambiente social, comportamento prático e modos de vida. Por um lado a capoeira exerce sobre elas uma notável ação educativa; por outro , dá-se a aquisição de determinados elementos da experiência social. A princípio, estas atitudes desenvolvem-se em consequência das instruções do professor e das exigências da roda de capoeira.Sob a influência de determinadas exigências sociais aceitas e assimiladas que regulam o comportamento em colaboração direta com os adultos e outras crianças vão se transformar em exigências internas desse próprio aluno.A capoeira alcança seu objetivo particular e geral quando põe em ação as capacidades potenciais do aluno. A interação em diferentes aspectos na roda de capoeira assegura suas potencialidades em todas as direções. Uma capoeira que separa as palavras dos atos é um fracasso; a instrução pedagógica verbal, que a criança não põe em prática , não trás nenhuma mudança real à sua vida, à sua posição no coletivo.


Durante a vida e a atividade da criança, organizado pela educação, apresentam-se não só novos conhecimentos que refletem a realidade objetiva, mas também novas necessidades, exigências,interesses, aspirações, novas formas de pensamento, novas sensações,, novos aspectos de caráter, novas aptidões.
Essas qualidades não se afirmam imediatamente, mas desenvolvem-se no decorrer da atividade da criança, sob condução do educador.
Reconhecer as diferenças, atitudes e as características específicas de aprendizagem, da condução e do desenvolvimento da criança têm importância crucial ao educador de capoeira.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

treinar pra quê?

    Existem alguns capoeiristas que aprendem capoeira sem treinar...mas como isso acontece?
a roda de capoeira para esses camaradas é o maior ensinamento que podem ter. Para eles não existe esse negócio de treino, capoeira se aprende jogando.Tá certo, também acredito que se aprende com a roda mas acredito  também que, roda e treino devem andar de mãos dadas.É no treino que a gente vê se o capoeirista é disciplinado, se vai para a frente ou para trás, para a direita e para a esquerda; se sobe-descendo ou se entra-saindo, sem falar na convivência com os atores em questão.O treino envolve novas experiências, melhores propostas metodológicas e uma didática melhor para o ensino-aprendizagem de seus alunos, além de favorecer ao aluno múltiplas possibilidades para a eficiência e performance do seu jogo.Entretanto há pessoas que têm ojeriza a esses termos, foge e têm medo como "o diabo da cruz"; é preciso superar esta condição, não podemos ficar na mesmice. A capoeira que acontece nos dias atuais está voltada principalmente para a educação e saúde de seus alunos; está enveredando por várias áreas do conhecimento e despertando o reconhecimento do mundo todo.Afinal, já passou o tempo de  ensinar capoeira no sentido de "Dino é o dono do boi" ou " balança e pá".
    Acredito que, o arcaico (velho) deve ser deixado para trás, e o tradicional - referência ao passado e história da capoeira ,deve andar de mãos dadas com a evolução no sentido de perceber e atuar capoeiristicamente com o mundo que está aí fora.
Mestre Bimba nos deixou esse legado; assim fazemos o mundo gingar!
    Vamos treinar???

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

parafraseando tico e teco!!!

        Eu tenho dois alunos na capoeira  que são irmãos gêmeos (Gustavo e Bruno), mas só quem convive a algum tempo com eles  consegue identificá-los de uma forma muito natural como se não fossem como tal ,e de fato são  pessoas diferenciadas no seu jeito de ser; para reconhecer esses camaradas custou tempo...tive que ter jeito e errar muito para  identificá-los no  pé do berimbau.
        Hoje(18 de Fevereiro) o Corcova e o Jeitoso, assim são chamados na capoeira, estão aniversariando!! que beleza !!e como diz o Corcova- estamos fazendo vinte e três e meio!! entendi na hora. Para variar comemoramos esta data como sempre foi... treinando (é uma profunda identificação que tenho com meus alunos-o gosto pelo treino). E é claro que não deixamos de fazer nossas reflexões, afinal não se joga capoeira somente com o corpo físico mas também com o coração e a alma. As lembranças fazem parte desse processo,e é preciso nos remeter a ela sempre que possível; e a que ficou marcada para mim foi quando a mãe desses meninos bateu na porta da sala da academia CORPUS para eles fazerem uma aula de capoeira;  daquele momento em diante já se passaram quase dez anos ao meu lado jogando capoeira na vida e na arte.
       Em nossos encontros, vejo esses camaradas amadurecendo para vida e para a capoeira; possuem um espírito muito fraterno de dar lição a qualquer pessoa;o que falta num, sobra no outro e vice-versa, pois quando estamos juntos há um espírito de colaboração, entrega e sentimento que prevalece; estamos irmanados na roda da vida ...na roda de capoeira.
       E sabemos muito bem que o tempo é implacável;o tempo nos é caro...portanto VAMOS VIVER INTENSAMENTE e obrigado pelo espírito fraterno que tanto me acompanha.
   

o apelido

...eu tinha sete anos e lembro como se fosse ontem.
eu gostava de estar metido no meio dos grandões do bairro, nesse caso era menos conceituado pela turma e realmente era; tinha o aspecto físico muito frágil e havia perdido parte de meus dentes além da galera ficar tirando onda das minhas orelhas de abano.
...um certo dia em que estávamos jogando bola com essa rapaziada, os mais velhos resolveram apelidar os mais novos...foi um festival de gargalhadas! lembro de alguns apelidos que ficaram marcado na minha lembrança como " zé calcinha" e " beronha", este último até hoje nos cruzamos por aí.
...e Sérgio ( um dos grandões) olhou pra mim com uma imensa gargalhada acompanhada dos outros e disse: ah!! vc tem uma cara de rato...com essas orelhas, magrelo...
...aí então não teve jeito...!

o início

...havia um piazão muito esperto e de bem com a vida na rua onde passei minha infância e adolescência.Ele,filho criado sem pai, tinha uma mãe muito severa no trato dele e seus irmãos. Durante o dia vendia salgado para ajudar em casa, e  algumas vezes presenciei os "tapas na cara" que meu amigo levava por não ter conseguido vender todos os salgados...sua mãe era implacável!!!
...esse camarada se chamava Delmir e era conhecido pelo apelido de nego BÓ.
o bairro que crescemos se chama LINDÓIA e na história deste lugar é difícil não fazer referência ao tal do Beco do BRUNO; um local criminalizado, reduto de todo o tipo de pessoa que alugavam as casas que ali estavam. Por falta de conhecimento e organização do proprietário as casas foram construídas amontoadas e sem limites de espaço, só havia uma única entrada e saída deste local...somente o Beco.
...realmente este lugar  foi uma escola da vida para mim, tive que amadurecer muito cedo diante das circuntâncias e adversidades que aconteciam naquele Beco.
foi aos treze anos que pratiquei a capoeira pela primeira vez; eu estava brincando num terreiro e o ensinamento se deu de forma natural e espontânea. Um dia desses meu amigo Bó chega com sua caixa de salgados(vazia graças à Deus)pendurada ao seu pescoço, senta-se ao meu lado e me pergunta: hem rato, vc já viu capoeira?...eu nunca!! ali surgiu os primeiros passes da ginga e alguns movimentos como o aú e a rasteira...ali mesmo, naquele terreiro empoeirado surgiu uma identificação com a capoeira que me deixou impressionado!
...eu via no meu amigo uma grande alegria de mostrar aquela dança para mim,parecia que era a hora da entrega.Aquele negro me africanizou com sua arte, me fez conhecer o candomblé, o maculelê, o samba ,me levou para o seu mundo até então desconhecido para mim.
....desse dia em diante não parei mais, ficamos mais unidos por causa da capoeira, praticávamos em todos os lugares que a gente andava. Um dia desses ele me levou para conhecer o trabalho do Mestre DÉA, lá fui apresentado surgindo a oportunidade de treinar em recinto fechado.
...de lá para cá a capoeira foi o meu rumo e o meu ritmo, é meu jeito de encarar o mundo...é meu ofício e vocação!
....ahh! e o BÓ ??? foi caminhar pelo mundo afora, ninguém viu...ninguém vê!! somente eu sei onde ele mora.