para um bom leitor

...escrever é sempre um ato de existência.Quando se escreve conta-se o que é...A história é mais real do que qualquer explicação.A realidade do que sou está mais no que escrevo do que nas racionalizações que possa fazer. (Ruth Rocha)

sábado, 10 de dezembro de 2011

"eu já vou beleza...eu já vou embora!" (Mestre João Pequeno de Pastinha)

E partiu mais um dos SANTOS; o João Pereira dos Santos foi visitar a roda dos baluartes para não mais voltar.É verdade, a sua missão já foi cumprida por aqui deixando traços e ensinamentos de profunda humildade, persistência e sabedoria. Quando vi pela primeira vez o Mestre João Pequeno jogar e cantar me causou uma emoção que nunca mais esqueci. Guardarei em minha memória e meu coração momentos mágicos que vivi ao lado do Mestre e agora foi um tempo que não volta mais; um tempo que existia verdadeiros mestres de capoeira e da vida. As minhas referências na capoeira e na vida estão partindo, por um momento me senti pouco orfão de pai em todos os sentidos, mas "se a fruta é boa, ela dá boa semente!" A benção MESTRE!!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Capoeiristicar, mesmo assim...!

Caros amigos, estou de novo por aqui retomando o fôlego após sobreviver à uma avalanche de acontecimentos(negativos). De fato sobrevivi, mas não me reconstruí. Isto demanda tempo e uma profunda reflexão sobre a vida, capoeira e afins...!Entendo que perdas e ganhos correspondem a nossa passagem, mas a superação e aceitação de uma situação ruim é processo dificultoso na vida do ser humano. Porém, de agora em diante, fica mais claro para mim quando um ciclo tem que ser fechado para começar outro (a teoria se revela na sua concretude). Sigamos em frente. No decorrer do ano, as narrativas com grande fôlego nos permitem a cumplicidade com a memória.O conteúdo deste blog é um dado histórico que rastreia de forma direta ou indireta nossas ações na capoeira e seu entorno;é possível elencar noções de simultaneidade, sucessão, permanência e mudanças.  Penso que uma saga foi sendo reconstruída com destinos intercalados em camadas carregadas de significados. A generosa convergência para a sobrevivência do que ainda guardamos de humanidade e a dicotomia entre a amargura e persistência são exemplares para o novo século que defrontamos contra o individualismo. No entanto, a nossa capoeira se mantém como um porto seguro, pois ainda que penemos para entendê-la, ESTA nos dá a suprema consciência do outro, do planeta e do resgate do senso de sacralidade perdido. Sabemos que cada um carrega um pesado fardo, mas também temos consciência que somos capazes de superá-lo diante do sofrimento e absurdo. O caleidoscópio da arte de gingar é uma travessia para o combate à atmosfera de bruteza do mundo.
então,...bora jogar capoeira!!

domingo, 13 de novembro de 2011

Espaço e tempo.

Por costume, prática e profissão preciso caiar a capoeira todos os dias. É uma hesitação que me obriga rever episódios e  neste percurso me pego buscando pistas, temeroso de que o público do qual eu faço parte fique apenas na própria imaginação do escritor. Observando bem o cenário da capoeira, passeio pelas livrarias, respondo e-mails e me embriago através da geografia proporcionada pelos intensos deslocamentos em que a arte se manifesta. Não é incomum esta busca de prazer (muito além do plano fisiológico ou resultado de uma entrega à fruição ou premiação). Obtemos, sem dúvida, belas imagens da maravilha da capoeira em seus diversos aspectos e formas de se manifestar. Assim, passei a ajustar meu próprio processo de aprendizagem a fim de encontrar a mim mesmo. Ainda que seja claro a todos, a arte de gingar causa um estranhamento de si mesmo e por muitas vezes nos perguntamos como pode algo ser destinado...a mim ou a nós todos? Talvez a arte, que pode lhe ter como destinatário, acabe por gerar a sensação de que se é incapaz de atingir tais expectativas. É uma experiência cada vez mais corriqueira e compartilhada, por isso capoeira se faz com "o outro". O tal "estranhamento de si" é o resultado do sujeito moderno com a sensação de se ver obrigado a fazer e agradar a todos além de encontrar um mundo transbordante de significados. Na roda, as antecipações formaram uma imagem de platéia que deu em mim uma experiência inquietante: a conformidade com o caminho aberto pelo próprio artista. Eis aqui um capoeira de sorte que tem o seu próprio público onde seu trunfo, em dificuldade, resolveu falar da própria dificuldade. Infelizmente, em nossa alta, pós, tardo modernidade  estranhamos os processos mais íntimos de nossa condição. A reflexão é o reencontro daquilo que não é mais seu, agora passível apenas com mediações, típico da modernidade.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

verbo "capoeiristicar"

É assim! Uma palavra basta e a forma jogar rapidamente muda, transforma, surpreende. Quando se tem fundamento naquilo que você acredita, pratica  e realiza para  seduzir nosso olhar pela complexidade de sua alma e força inventiva adentramos no mundo capoeirístico. Diante de corpos contorcidos pela beleza plástica e sedutora dos capoeiristas há um fio condutor, essencial ao seu desenvolvimento.O jogo da capoeira é instante para se saber que algo de bom está adormecido em nós, basta a rebuscada nas artimanhas e pronto...já aconteceu, já foi! Como? O elo que existe entre o mestre e o aprendiz é conduzido pela força da palavra que se traduz também em gestos, mas que é muito forte e essencial na sabedoria, nos códigos.Através da força das palavras é possível vencer a impaciência, a aceleração...comumente refletir. Sabe-se que, de tudo que já dito até aqui foi passível de desdém, crítica, elogio e afins. O aprendizado vem com o tempo, é processo. Neste caminho alguns desistem, se perdem; "capoeiristicar" as ações nem sempre é compreendido mas insistir no processo é busca incansável pela essência das pessoas.

sábado, 15 de outubro de 2011

valor da tarefa

De fato a aprendizagem na capoeira é mediada por fatores diversos, não podendo ser atribuída exclusivamente às capacidades cognitivas do aluno, o sucesso ou insucesso neste processo. Nesse sentido, tem se considerado a importância de investigar tanto a dimensão cognitiva quanto afetivo-motivacional no seu desempenho. O processo ensino-aprendizagem  na capoeira é hoje entendido como uma construção que envolve um papel ativo por parte do aluno. Nesta perspectiva, torna-se imprescindível que o aluno desenvolva capacidade de estabelecer as próprias metas, planejar e monitorar seus esforços na direção de um melhor desempenho. De modo geral, uma estratégia de aprendizagem envolve diversos recursos utilizados pelos alunos ao aprender um novo conteúdo, ou desenvolver determinadas habilidades. A classificação mais empregada atualmente é aquela que distingue as estratégias cognitivas (se referem a comportamentos que propiciem que a informação seja armazenada mais eficientemente, ex: elaboração, ensaio, organização) e metacognitivas (constituem procedimentos que o indivíduo usa para planejar, monitorar e regular seu próprio pensamento). Mas o que motiva os alunos utilizá-las? Sabemos que uma coisa é possuir capacidade, potencial e outra coisa é conseguir aplicá-las com fundamento em face de dificuldades, fatores estressantes ou interesses paralelos. As escolhas, a persistência e o desempenho dos indivíduos podem ser explicados por suas crenças sobre quão podem se sair em determinada tarefa, bem como a quantidade de valor atribuído à atividade proposta. O valor da tal tarefa possui três componentes, a saber: utilidade, importância e interesse, ou seja, uma aula de capoeira precisa ter fundamento. O valor da tarefa é apontado como fonte de motivação, pois se não se percebe a utilidade do que se deve aprender, o interesse e o esforço tendem a diminuir à medida que o capoeirista  se pergunta para que serve saber o que se pretende que aprenda. Diante do que foi exposto, fica também a justificativa e o desafio de formar um profissional da capoeira para orquestrar uma atividade tão complexa.

domingo, 2 de outubro de 2011

AFETIVIDADES


  É através dos afetos que o ser humano se relaciona e vai além de sua individualidade e finitude. Apesar de o desenvolvimento humano ser um processo individual e único, ele necessita do outro para que ocorra, perante a estimulação mútua de sentimentos, afetos e experiências. Na capoeira, somente jogamos bem na relação com o outro, quando fazemos com o outro. O jogo caracteriza-se pela interatividade entre os processos de mudanças e continuidade ao longo das várias fases do ciclo vital. E se o jogo é difícil, negociamos. É importante lembrar que a passagem do tempo é um elemento de mudança. Contudo, é pela presença de certas características se manterem estáveis (como uma relação de afeto estável e contínua) pode ser considerado o principal elemento para a superação da mudança. Mudar causa angústia e o cérebro muitas vezes resiste tal mudança. No entanto, o ser humano é um elemento ativo, com capacidade de intervir no seu meio e alterar as circunstâncias. A capoeira é um processo criativo constante, existe o estímulo para a transformação.Nessa perspectiva devemos defender a qualidade de desenvolvimento que será fortemente influenciada pela capacidade relacional e os afetos que nela predominam. Mestre Camisa resume o que escrevi acima quando nos fala da ginga "...quando gingo e olho nos olhos, vejo você em mim". Esta mensagem traduz a forma e os acontecimentos vividos e avaliados pelos capoeiristas, ou seja, os afetos e sensações a ela associados. É através da afetividade que o capoeirista se reconhece e, assim, pode se relacionar e ligar-se aos outros.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Continuidades !!!

Este ano começamos uma nova etapa para os treinos de capoeira, visamos o aprimoramento técnico respeitando a especificidade e os fundamentos da capoeira. Iniciamos (no primeiro semestre de 2011) com foco nos alunos mais experientes um trabalho de alto rendimento embasado pelo estudo de Luiz Eugênio Castanho de Almeida (Cavalo-ABADÁ-CAPOEIRA) "Fundamentos Básicos da Preparação Física na Capoeira" que deu suporte para o entendimento e estudo do assunto. Muitos dos objetivos propostos foram atingidos, desde o aspecto motivador (a diversidade e criatividade das aulas) até a superação de deficiências técnicas e motoras pelos envolvidos. Desta forma, finalizamos a primeira etapa do trabalho de 2011 com o Curso Básico que extrapolou as expectativas. É claro que dentro desse período algumas coisas não deram certo, é realizado de erros e acertos pois o treinamento envolve vários aspectos além das capacidades físicas: a rotatividade e aspectos psicológicos desequilibram a rotina dos treinos. No entanto cumprimos a primeira etapa com sucesso. Procurei com a ajuda de todos investigar minha prática fazendo os registros das aulas, rodas e cursos. Assim, pude visualizar minhas limitações e ganhos; a Pedagogia  ajuda muito nessa prática, na agenda escrevo meu planejamento diário onde registro os acontecimentos vivenciados, minhas dúvidas, minhas falhas e dificuldades sentidas e percebidas (Às vezes contando sobre um aluno em particular, outras falando das atividades). Ao compartilhar com vocês meu olhar-por-escrito  retomo a dimensão humana do fazer: nem só acerto, nem só erro, mas um processo comprometido, marcado pela busca da significação do trabalho com pessoas e com o movimento de uma prática de qualidade, pois a escrita traz-faz revelações e amplia a consciência do educador. Neste tipo de trabalho é importante que o capoeira atente para o ESFORÇO: porque exige disciplina, disposição para novas aprendizagens, desalojando certezas, convivendo com a dúvida e o movimento. Porque é PROCESSO, não ponto de chegada. CORAGEM: porque, ao refletirmos sobre o vivido, nosso campo de visão se alarga e conquistamos a possibilidade de enxergar além do nosso sucesso, de nossas alegrias e realizações certeiras. De agora em diante travamos um diálogo com nossa prática, percebendo idas e vindas. E na medida em que o vivido vai se tornando explícito e traduzido partimos para a segunda etapa de nossos treinamentos em função do "Treinamento funcional aplicado na capoeira" do mesmo autor . Novamente desmontaremos e montaremos o básico da capoeira sob outro olhar. Tudo passível de reflexão.
Parabéns ao Luiz Eugênio pelo valioso trabalho!!
                                                                     ...bora treinar?!

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O Mestre

O Mestre faz "o gato ladrar, o cachorro miar e o leão agachar!", dizia Dr. Decânio, o mais "idoso" dos discípulos de Mestre Bimba ainda vivo. Hoje tenho a plena certeza dessa expressão que tem na figura do Mestre Camisa a sua concretude. É difícil mensurar a importância dele no mundo da capoeira: suas palavras de sabedoria, postura, técnica e conhecimento da arte envolve discípulos ou não. Ao longo dos meus anos na capoeira acompanho o pensamento do Mestre Camisa sem deixar de levar em conta os saberes de tantos outros mestres. Mas o Mestre Camisa é completo, está sempre evoluindo no sentido de cuidar e melhorar a vida útil dos capoeiristas. Nele perdura o desejo de sair da acomodação, pois os treinos mudam, impera-se a criatividade e se adaptam a mais difícil situação. Entretanto, o que mais aprendo com o Mestre é lidar com os conflitos e decepções na capoeira. Faz parte do aprendizado o inusitado e a perda, pois fazer "trabalho dá trabalho": é aluno com problemas, aluno com temperamento difícil, aluno preguiçoso, aluno desmotivado...a lida com o ser humano é sempre dura e difícil, mas é possível. A compreensão e a orientação, ou seja, o educador na capoeira é o caminho. Não basta só jogar. Obrigado Mestre Camisa pela oportunidade de beber dessa água. Salve Mestre!!

Sebastiões, no dia deles

...que fazem os Sebastiões que não convidam a gente para beber e comer com eles, no dia deles? Proponho o costume. Conversaríamos sobre o redondo nome Sebastião na história, nas letras, na vida de cada um. Nome de santo e de reis, nome de peixe (Mustelus canis) e de pássaro (Lipaugus vociferans, que horror), papo fácil de puxar, basta abrir o dicionário, letra S. Nossa língua é uma graça...( ) 
Depois de sebastianizar ou sebastiofilosofar bastante, teremos apurado o senso de convivência em torno de nomes bons, antigos e inspiradores de gratas histórias. Será uma etapa vencida para a reconquista (ou conquista, quem sabe) da vida-como-paz em lugar da vida-como-guerra.
Por enquanto, são devaneios meus. Acordo para saudar os Sebastiões...( )

                              Carlos Drummond de Andrade (O poder ultrajovem)

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Ligeireza dos atos !!!

A capoeira de Curitiba está em ascensão, há vários segmentos da arte de gingar em nossa cidade com excelentes trabalhos. Esta informação é notória e vitoriosa porque além de mostrar a função social da capoeira em bairros afastados da cidade, os grupos  demonstram com muita habilidade que esta arte movida pelo berimbau consegue ser visada e reconhecida em uma cultura relativamente fechada e conservadora. Nós (curitibanos) devemos buscar nesse cenário a interação com essa diversidade através da troca de treinos, eventos e rodas no sentido de aproximar e engrandecer o nível de capoeira da cidade. Assim, quero agradecer aos alunos, do iniciante ao graduado, pelo entendimento dessa proposta dispondo a caminhar juntos. Em especial agradecimento a Tica, por ter encabeçado esta difícil tarefa de envolver e conduzir os alunos para a troca de tais experiências com outros capoeiristas.Tenho certeza que bons passos foram dados em relação a autonomia, confiança, autoconhecimento e motivação. Tal motivação leva-nos a crer que o capoeirista que "corre roda" volta melhor para o treino, há um desejo de superação que se potencializa através de um olhar ampliado da capoeira, além da mecânica dos golpes e gesto repetitivo do toque do berimbau. Nesse ínterim o camarada se distingue dos outros, torna-se mais espontâneo, singular, benfazejo nos gestos e atitudes. A verdade é que sempre haverá uma tarefa a ser cumprida; uma necessidade de acrescentar algo: essência, mandinga, destreza, personalidade...profundidade! São tantas as buscas até o fim da existência, cada um tem a sua. Mas lembre-se: nada de acomodação, portanto "rode" o quanto puder e desejar, os momentos são únicos, não tem como fazer de novo!! É na ligeireza dos atos que se aprende que cada um é cada um.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Movido pela capoeira!

Note-se como nosso conhecimento sobre a capoeira extrapola fronteiras, atinge corações,apresenta-se como um palco de nossas vidas. É uma visão de mundo na qual emerge todo o tipo de situação (boa ou má), e com  tal jogo de cintura podemos contornar e prosseguir. A capoeira mora em muita gente, mas poucas moram na capoeira. A passagem pela arte de gingar é uma porta que se abre para o desafio constante de cair e levantar; perdas e ganhos faz parte do aprendizado: o ganho potencializa os atos, provoca segurança e faz escola, perder abre possibilidade para fazer melhor da próxima vez. A verdade do capoeira está em aproveitar o máximo de dimensões fascinantes em um exercício  de resistência e esperança com pessoas que têm em comum o anseio por um mundo melhor.É claro que a força e a revelação do poder que envolve a capoeira, muitas vezes, impactam a opinião pública. Mas o capoeira tem consciência de sua fraqueza, e, através de seus movimentos há um apelo constante para o maravilhoso: eis a continuidade da roda. A história da capoeira e dos seus envolvidos se fundamenta entre a tensão do aço (arame do berimbau) e os corpos dos jogadores. Nossos sentidos vão à tona; há uma ligação direta com a vida de cada um; exuberância do nosso jeito de ser. A capoeira é a arte que está encantando o mundo, e que o aço do berimbau vibre mais forte nesse dia!! Feliz dia da capoeira à todos que fazem da arte, digna de respeito.

domingo, 24 de julho de 2011

Analogia intensa

Uma maneira muito evidente que a criança tem é fazer relações entre o mundo interior e o mundo exterior. Este recurso suscitam verdadeiros nascimentos com a linguagem e que compreende um novo saber. Alguns exemplos da voz infantil são preciosos: "O calcanhar é o queixo do pé", ou " A cintura da mão usa relógio". É um novo saber que se quer explicar. Assim a criança  está livre do medo de errar, pois ainda não está sob o julgamento e correção dos adultos. Ela está livre para inventar, transferir, comparar com a linguagem. A analogia requer um estado de atenção no que diz respeito à leitura do mundo que rodeia a criança. Os olhos e ouvidos devem estar atentos ao traduzir sons e imagens quando a criança relaciona com outro aspecto. Seria uma educação do olhar, do ouvir, do sentir? Elas, as crianças, costuram extremos com tanto encanto que não temos nem coragem de comentar. A analogia é  base do conhecimento e vitamina do imaginário. A criança em sua ilimitada analogia faz do mundo sonoro, da imagens e  dos significados uma cabana com uma folha de palmeira dobrada. Desta forma encontramos a percepção do mundo renovada e algo se amplia na nossa humanidade pensante. Este synthoma exige olhos de ver e ouvidos de ouvir de quem está próximo das crianças.
Synthomas de poesia na infância- Gloria Kirinus.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Os dias vão, eu fico.

O que foi dito até agora é a fidelidade extrema ao pensamento. Ser fiel ao pensamento, não é recusar-se a mudar de idéia (dogmatismo) nem submeter suas idéias a outra coisa que não a elas mesmas (fé), nem considerá-las como absolutos (fanatismo); é recusar-se a mudar de idéia sem boas e fortes razões. Fidelidade à verdade antes de mais nada.Toda a nossa ação é uma moralidade em revolta contra sua forma anterior: começa pela polidez e continua mudando de natureza pela fidelidade, esta é contrária a "derrubada de todos os valores". Fazemos primeiro o que se faz; depois impomo-nos o que se deve fazer. Primeiro respeitamos as boas maneiras, depois as boas ações.Os bons costumes, depois a própria bondade. Fidelidade ao amor recebido, ao exemplo admirado, à confiança manifestada, à exigência, à paciência, à impaciência, à lei...O amor da mãe, a lei do pai. Cada um, porém, sabe o bastante a respeito. O dever, a proibição, o remorso, a satisfação de ter agido corretamente, a vontade de fazer direito, o respeito ao outro...Tudo isso depende, no mais alto grau, da educação. Assim, esta reflexão foi o norte de todas as nossas ações na capoeira deste primeiro semestre. Que venha mais uma etapa para ser cumprida, pois os dias vão, eu fico...na capoeira!

quinta-feira, 7 de julho de 2011

sexta-feira, 1 de julho de 2011

ABUNDANTE RISO

O texto Synthomas de Poesia na Infância de Glória Kirinus explora a dimensão da fantasia na conduta infantil. A criança como um ser de poesia plena é emergida em seu estado contemplativo sem os rigores do tempo e do espaço.É uma leitura sugestiva para a sociedade, pais e educadores para a redescoberta das crianças em estado de crianças, com synthomas de crianças, isto é, com synthomas de poesia, sobretudo numa infância que ganha rótulos na sociedade atual como hiperativos, distraídos, impulsivos, rebeldes etc. Descrevo agora  alguns pontos interessantes sobre o tópico: Abundante Riso. Infatigável, as crianças lançam sua palavras preferidas: cara de pum, de bunda, de chulé. Diante desta linguagem desprendida e sem compromisso as crianças descobrem nos adultos o riso inusitado sem graça e  com ar de repreensão.A verdade é que elas sabem que quebraram o protocolo do mundo adulto fazendo desatar o riso contido. Se as palavras do dia despontam com a palavra bunda, xixi, cocô, pum, chulé etc inevitavelmente nosso riso acontece, nosso riso aumenta (acompanhado de temor, tabu, receio,vergonha). Assim, a palavra em sua função denotativa e conotativa desestabliza o status quo de qualquer pessoa ou grupo. Transcende a imagem, o significado e a sonoridade para cumprir sua destinação poética. Segundo a autora, "afetar afetivamente as palavras podem espantar desafetos com o corpo", portanto "rir junto e muito, sim". As palavras abundantes nos tiram do enfezamento e aliviam as tensões. Quando brincamos e rimos como o outro,criamos laços de intimidade da linguagem. As crianças ao nos desconcertarem com suas palavras estão verificando se estamos vivos, é um convite a brincar e rir com elas.
DEISI, obrigado pelo valioso presente.

domingo, 26 de junho de 2011

Curso básico 2011 (feedback)

É a força do desejo que faz uma acontecimento se manifestar.
Essa manifestação pode acontecer pelo desejo de "potência", pois quanto mais potente for um acontecimento, mais ele pode se transformar ou transformar o que está a sua volta.
Portanto, nosso olhar para a prática da capoeira visa elaborar um método para avaliar não só a quantidade ou qualidade,mas também a "potência" do aprendizado realizado pelos alunos em um processo de ensino e aprendizagem.
OBRIGADO À TODOS PELO SUCESSO DO EVENTO.

Crônica breve

Depois de alguns "trabalhinhos da facul"...uma boa roda de capoeira em pleno centro de Curitiba.
 

obs: em pleno feriadão!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

a ordem dos fatores ou invenção do cotidiano?

Como é interessante analisar a capoeira sob diversos olhares, sejam teóricos ou metodológicos, todos tem a sua ordem, a sua verdade...a sua ótica. Isso porque a diversidade desse país refletida nas culturas que aqui se desenvolveram encontram estratégias e táticas nas suas condições de sobrevivência e inserção na história desse povo. E a capoeira é uma das mais vivas culturas de resistência. Mas como esta arte resiste a tanta pressão dentro de um sistema preconceituoso e discriminatório? Ou como e porque a capoeira faz o mundo gingar, atualmente? Temos inúmeras respostas para tais questões. Diante dessa discussão faço uma conversa com o pensador francês Michael de Certeau. Penso que a capoeira vai de encontro com a sua obra A invenção do cotidiano: artes de fazer. A estratégia e a tática está no cerne da questão, a capoeira utiliza e reutiliza estes conceitos para sua prevalência nos contextos em que ela se desenvolve, no seu cotidiano. Segundo Certeau (1985;1994), estratégia é " o cálculo ou a manipulação de relações de força que se tornam possíveis a partir do momento em que um sujeito de vontade ou poder é isolável e tem lugar de poder ou saber". Tendo em vista esta definição, há quem tem o poder e almeja o controle do outro, seja por meio da negação da diferença ou da tolerância. Dessa forma estratégia  é definida PELA POSSE DE UMA LUGAR PRÓPRIO. Para o praticante desta arte este conceito é muito aplicado, mas como desatar  esse nó, como dar um jeito, já que na própria capoeira as relações também se diluem em
força e poder? Certeau aponta as táticas que se constituem por uma ação calculada ou pela manipulação de força quando não se tem o próprio, quando estamos dentro do campo do outro e é em função da ausência desse lugar próprio que calculamos a relação de força e poder. Podemos dizer que muitos alunos são sujeitos que  agem no campo alheio a partir das táticas. Nas táticas, damos golpes, aproveitamos conjunturas, circunstâncias: não seria o tal jogo de cintura que utilizamos insistentemente para sair de tais situações? Assim o sujeito fraco joga com as forças do outro em um movimento dentro do campo de visão do inimigo e no espaço por ele ocupado. Nessa perspectiva os capoeiristas resistem através de suas táticas, este vigia para captar nas pernadas possibilidades de ganho: depende da ocasião, é feita em um instante. O praticante desta arte está constantemente jogando com os acontecimentos para os transformar em ocasiões. Em concordância com Certeau (1994,p.47) as táticas na capoeira apresentam continuidades e permanências, multiplicam-se. As práticas cotidianas para a capoeira são táticas, eis uma das maneiras de resistir e se colocar como arte do futuro!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Iluminações da Tica...

Amanhã é o seu aniversário,uhuuu! Mas de antemão preciso dar engrenagem a pensamentos, momentos e reflexões (ainda que seja pouco) para homenagear você até findar o dia de amanhã. Quero dizer que a Tica é uma pessoa que constrói seu verso com tal delicadeza e precisão que nos remete ao fio da seda que envolve o casulo. É verdade, foi pelas mãos dessa linda mulher que aprendi a traduzir o mundo através da escrita, ela escreve como ninguém: sou seu fã e leitor incondicional. É isso, escrever para revelar mistérios ou simplesmente apontá-los; escrever para não morrer, para não ver passar o Tempo...escrever sobre as pessoas maravilhosas que estão ao nosso lado para o que der e vier. Com o fino olhar, a Tica fotografa e revela o mundo. Dessa forma sou seu aprendiz, assim sou conduzido a pensar e repensar a vida e seu entorno; se não fosse esse anjo da guarda levaria uma encarnação para ser o que hoje sou!A sua explosão de sentimentos é a sua maneira de levar a vida; Ela tem a paciência e a tolerância até o limite suportável de um ser humano. Enquanto muitas histórias de amor começam terminando, a nossa já dura uma eternidade. Assim somos nós dois: razão e emoção se equilibrando na balança da vida. Por aqui começo a desejar toda a felicidade e amor do mundo à mulher querida e amada, às vezes menina, companheira inseparável, capoeirista "de mãos cheia". A sua dedicação ao lar me comove sempre e o seu afago e conforto nas horas difíceis é insubstituível. PARABÉNS! PARA A INCANSÁVEL TICA...TE AMO!

sábado, 21 de maio de 2011

Curso básico 2011

É a força do desejo que faz um acontecimento se manifestar. Essa manifestação pode acontecer pelo desejo de potência, pois quanto mais potente for um acontecimento, mais ele pode se transformar ou transformar o que está a sua volta. No Curso básico, além de pensarmos em quantidade e qualidade, refletimos também na sua intensidade. A quantidade, para ser medida, necessita de uma unidade que crie equivalências ente coisas diferentes; uma qualidade busca determinar a natureza do estado das coisas, fixando-lhe uma identidade. Uma intensidade, pelo contrário, é uma percepção que depende do observador. Quanto mais ela se espalhar em um campo de visão, mais ela tem a capacidade de afetar, assim tem sido a projeção e a prática do Curso. O resultado de cinco edições anteriores equivale a um número irracional, por isso é difícil avaliar se aquele ou esse é bom ou ruim. O que acontece é que sua medida será sempre aproximada, nunca exata, nunca racional, mas sempre única e singular, sempre diferente. Diante dessa experiência nada nos faz ter certeza do feedback imediato do Outro. Mesmo que o aluno nos dê uma resposta adequada no momento, nada garante que ele concorde com a mensagem selecionada, nada garante que ele a tenha assimilado. É necessário que haja uma continuidade de comunicação e uma sequência de seleções, é preciso colocar em prática o que se aprende. Portanto, nosso olhar para a prática da capoeira visa elaborar um método que sirva para avaliar não só a quantidade ou a qualidade, mas, também a potência do aprendizado realizado pelos alunos em um processo de ensino e aprendizagem. Por essa via, acredito que a intensidade de alunos, principalmente àqueles que participam desde a primeira edição, é demonstrado claramente como se entrou e como saiu desse encontro. Utilizando da metáfora dos giros que o capoeirista aplica, podemos pensar que "as meia-luas giram até captar em todas as direções o máximo de forças possíveis, cada uma das pernas recebe sentidos novos ao entrar em relação com as demais".
Sejam bem-vindos ao Curso Básico- 2011. O evento vai se realizar na Academia Hot Center, nos dias 4 e 5 de Junho. Até lá...

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Capoeira e didática

A verdade é que estamos insatisfeitos com o já-sabido, já-dito, já-feito. Precisamos, sim, ser mais intensos. Agora a busca é por uma capoeira que procura o não-sabido, o não-olhado, o não-pensado, o não-sentido, o não-dito. Mas o que fazer com alguns que deram seus "pulos", desistiram da caminhada e se tornaram uns "velhos pançudos tocadores de berimbau?" Deixemos para lá...queremos distância de tal perspectiva! Podemos pensar que ensinar é uma passagem, é o intermediário entre o não-ensinar e ensinar, uma tarefa errante e sempre em movimento, entremeada por acontecimentos.Saímos do papel de juíz ou controlador para decidir, combater,multiplicar, enriquecer as forças, podemos fazer existir. Para isso acontecer precisamos mudar práticas, formas de pensar, formas de agir. Ao transpor essas idéias para a didática percebemos que nada garante que a transmissão do professor seja literal e imediatamente assimilada pelo aluno. Penso que um professor precisa estar sempre ensaiado e preparado, ser uma fonte de inspiração para seus alunos, um companheiro de viajem. Ele precisa amar o seu assunto, porque só ensina o que ainda não se sabe, o que ainda se pesquisa. A roda de capoeira é um encontro pedagógico, é o lugar onde se ensina o que é ainda um problema, o que ainda precisa de solução. Nesse caminho temos a didática que é vista como "fazer aprender" ou como "a arte de ensinar";  a idéia de diálogo como um jogo de perguntas e respostas influencia enormemente esse conceito. Quando esse tipo de comunicação não acontece há uma "falha"; pode estar no ambiente, nos receptores, nos emissores, nos meios de comunicação ou na própria mensagem, a falta de didática. Essa "falha" deve ser minimizada a qualquer custo, a linguagem que se utiliza deve ser representacional, ou seja,a existência de  um código comum e estrutural que deve ser conhecido por todos. No caso da capoeira esses códigos transbordam em múltiplas linguagens: a oral, visual, corporal, escrita, musical ou teatral. São significações universais. Por essa via, a roda de capoeira sob um agenciamento pedagógico demonstra como se entrou e como se saiu desse encontro de camaradas.

sábado, 30 de abril de 2011

Roda de rua: "ser político"

Pode-se dizer,mesmo, que  na posição de capoeiristas da antiga e nova geração,nos descobrimos "ser políticos". Compreendemos a significação coletiva de nossos atos, e temos consciência de que, através deles, podemos modificar a realidade social, vale dizer, a nossa situação no mundo. Para tornar mais claro o que afirmo, estabeleço um paralelo entre a redescoberta hoje que fazemos na "roda de rua". O contexto dessas rodas a céu aberto, localizados em lugares específicos da cidade promoveu intensa transformação desde os anos noventa até agora: correrias, estranhamento, divulgação até chegar em uma relação dialética entre os " sobreviventes" daquela época até agora. Realmente os tempos são outros. Naquele tempo fazia capoeira pela auto-afirmação individual e coletiva, era a lei do mais forte. Mas a vontade de pensar uma capoeira que soma e agrega já tinha seus fluídos, estava na mão de poucos porém bons articuladores que não sucumbiram ao pior comportamento capoeirístico. A partir disso, a vontade pensar por conta própria de alguns mestres não encontrava incentivo nas  rodas: aquela pancadaria que acontecia não ia chegar a lugar nenhum.Muitos desistiram ou não existem mais para contar a história. Aos sobreviventes restou o movimento, a dinâmica, as possibilidades que a capoeira apresenta atualmente. É hora de captar outra imagem da arte, a capoeira é uma realidade geográfica, étnica, lendária. E no fazer e ser político, tão natural para o capoeira no seu dia-dia, torna-se claro o fenômeno cultural que faz o mundo gingar; os capoeiristas do mundo cotemporâneo fazem  consideráveis  transformações. E é claro que não se afirmará que só tem função social a roda que contiver formulação política explícita. A capoeira é complexa e dinâmica para que possa se sustentar somente em uma perspectiva. Os críticos aceitam a participação política do capoeira, na verdade ele o é,no entanto temem naturalmente o sobrepor em termos absolutos o problema ideológico, partidário. Especificamente a roda de rua é engajada politicamente, o que não é mais que a expressão de ponto de vista  do seu entorno por ventura justo. O capoeira reflete e atua na sua realidade. Se, entendemos a capoeira como um dos vários campos em que se formulam e exprimem as experiências humanas em toda a sua amplitude, aberto portanto à realidade dos fatos e dos problemas dos homens,então teremos mais  facilidade em compreender os próprios fenômenos:  culturais, sociais e políticos.

domingo, 24 de abril de 2011

CHIN: a garota feliz do pinhal

E bem aí,derramando sonhos até pelos poros, bem aí você chegou. Bem quando aqui fora a humanidade é crescente conto ter sido aí sua chegada: uma pessoa que vê uma ilha de margaridas ao meio do  asfalto, ou assiste ao pôr-do-sol derreter-se em música. A nossa Chinchila faz a vida preencher, envolve aos que estão a sua volta com ternura e amorosidade. Ela inventa enormes construções cheias de vidro, luzes e cores. Para a Chin, a roda de capoeira suaviza a existência, pois o sabor das cantigas e vivências ameniza o gosto ruim trazido muitas vezes...lá de fora (o mundo não está nada fácil). Mesmo assim, cada encontro abre uma página em branco,e dá mais um passo para a beira de uma história. Hoje, a passagem de seus anos é uma nova página de sua vida. Nesse momento em que escrevo, minha memória engatinha no sentido amplo dos detalhes,e basta o pinhal, o berimbau ou seus primeiros momentos na roda de capoeira para desdobrar-se toda uma história. Tenho como referência seu sorriso e na  crônica do tempo a vida segue de nosso ajuntamento na capoeira com o apoio de sua linda família. O que sucede, o que passa, tudo vai além da  funcionalidade da roda: existe e sempre existirá a comunhão de sentimentos. Às vezes conto a não-presença, jamais a sua distância; essencialmente está sempre por perto. Quando tocas o berimbau, somos tomados por um sentir, e, se igualmente somos, como declara a capoeira, fundimo-nos essenciamente...Feliz Aniversário!!

sexta-feira, 22 de abril de 2011

mais um pouquinho...vai!!

LEEEEEER...que tal?

Capoeira: educação não-formal

Segundo Gohn (2006), educação não-formal é " aquela que se aprende "no mundo da vida", via os processos de compartilhamento de experiências, principalmente em espaços e ações coletivas cotidianas". Tomemos como exemplo a capoeira. Mas afinal quem é o educador desse campo que estamos tratando? Na educação não-formal o grande educador é o "outro", aquele com quem interagimos,( mesmo sabendo que já existem instituições formais para o ensino da capoeira). Os espaços educativos na educação não-formal no caso da capoeira localizam-se em territórios que acompanham as trajetórias de vida de grupos e seus indivíduos. Distante de ambientes normatizados, com regra e padrões de comportamento, a capoeira se destaca pela sua intencionalidade, ou seja , está no ato de aprender, participar e de transmitir ou trocar saberes. Como se educa nesse contexto? Cada grupo tem sua história e fundamento, neste sentido a interação é construída coletivamente e a participação dos indivíduos é optativa. A finalidade desse tipo de educação é capacitar os indivíduos a se tornarem cidadãos do mundo, no mundo. Portanto, os objetivos não são dados a priori, pois é na construção mútua que se gera o processo educativo. A capoeira educa para a civilidade baseado em princípios de igualdade e justiça social. Desta forma fortalece o exercício da cidadania em suas interações promovidas nas rodas de reflexão e práticas contextualizadas. Um dos principais  atributos dessa modalidade educativa é desenvolver laços de pertencimento; porém trabalha e forma a cultura política de um grupo. Atualmente a construção de identidade coletiva tem sido o destaque  no mundo da capoeira, este "jeito de ser"  promove o capital social do grupo, pois fundamenta-se na solidariedade e interesses comuns. O resultado da educação dita não-formal apresentada pela capoeira está em formar indivíduos para a vida e suas adversidades e não apenas para entrar no mercado de trabalho; está presente em programas com crianças e jovens adolescentes que resgata o sentimento de valorização de si próprio. O método nasce da problematização da vida cotidiana através das cantigas e práticas sociais inseridas na roda de capoeira. Os temas surgem como necessidades, carências, desafios, obstáculos ou ações a serem realizadas. É importante dizer que em hipótese alguma ela substitui ou compete com a educação formal (escola); pode sim articular escola e comunidade via programações específicas.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O som que vem de dentro.

 Existem vozes que ainda clamam pelo sentido humano de cada um de nós, motivando e iluminando os capoeiristas com a melhor palavra de Deus. O que se pode desejar mais de um professor de capoeira como eu que tem as alunas Tica e Chinchila sob o signo da palavra amorosamente trabalhada e cantada? O caso é que "essas alunas" são inexplicáveis. Nelas está o fruto mais doce produzido pela natureza e a pegada mais forte que um capoeira pode levar, ou seja, elas  estão além do que se vê!...E quando tomam o berimbau sob seu comando  e entoam as cantigas mais significativas para a roda, provocam uma legião de admiradores e não poucos olhos de recusa e até de rejeição (a inveja é coisa séria!). Prefiro pensar que a voz e as cantigas da Tica e da Chinchila é uma eterna promessa de luz; há nesse gesto prazer e necessidade, uma comunhão de sentimentos que vêm à tona para  além da roda. O som que vem de dentro é também um som que vem da paciência, e elas, mais do que ninguém sabem o peso que o ato de esperançar (como diria Paulo Freire) nunca deve ser um  ato de "esperar", foram e estão sempre em busca de...esperançar! A verdade é que seus movimentos estão aquém dos limites de asfalto e céu de cal planejados pelo homem. As coisas sensivelmente humanas estão a todo momento sendo percutidas ao som de suas vozes e assim duas porções irmãs que nunca se separam vão sendo preenchidas: vida e obra. Eu, fico de soslaio a admirá-las; vocês me tem diagonal.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Entre as estrelas.

Lá se foi. Já não está mais entre nós. A capoeira perde mais um do seus representantes da essência da capoeira Angola: Mestre Bigodinho. O mundo da capoeira fez grandes mestres da vida e do jogo em si; tanta sabedoria e destreza da roda mostrou ao  mundo grandes pessoas que serão sempre referência no jogo da capoeira. Assim como Mestre Bigodinho, tantos outros têm a bagagem e o conhecimento que a vida lhes apresentou através de um tempo que permanece em nosso imaginário e que são sustentados pelos contos e causos desses grandiosos mestres. Infelizmente, alguns estão beirando aos oitenta anos de idade e não tem uma ajuda financeira ou seguridade social por parte do Estado; não tem seu conhecimento valorizado e até são vítimas de charlatões da capoeira. Ainda persiste um descaso com os "velhos mestres", eles estão à margem do intenso mundo da capoeira que se apresenta: a capoeira passa por um bom momento de valorização e reconhecimento no Brasil e no mundo. É preciso fazer o resgate histórico e valorizar os mestres antigos que ainda estão vivos. Como sabemos, além de Mestre Bimba e Mestre Pastinha muitos morreram na miséria sem nenhum amparo do Estado e dos próprios capoeiristas. Toda vez que perdemos um mestre antigo  deparamos com um futuro incerto:o que vem pela frente?Os mestres de verdade é difícil de encontrar e a roda de capoeira vai se tornando mais órfã! Conheci Mestre Bigodinho em precário estado de saúde; contava sim, com a ajuda de Mestre Lua Rasta que angariava algum dinheiro para garantir um pouco mais de dignidade ao MESTRE. Mas beirando tenra idade e com sérios problemas de saúde e financeiros, o mestre se foi. É Mestre, o sinhô deve estar cantando suas ladainhas e improvisando seu colorido samba de roda que tanto gostava de fazer por essas bandas. Foi reencontrar seu mestre Waldemar e tantas estrelas que tem por lá.
Axé Mestre!
                      tudo na vida se passa,
                      tudo na vida é passar!

domingo, 6 de março de 2011

a diferença é o que há...

Todas as rodas de capoeira trazem dentro delas  coisas completamente imperceptíveis ou óbvias. Algumas a gente aprende o que não deve ser feito, outras é a extensão do seu modo de pensar. Transito por todas as matizes, mas ainda fico inculcado com aqueles que não acompanham o movimento e o cenário da capoeira atual. A roda que me complementa é aquela em que as "pernadas" tem função, ordem, embelezamento,e principalmente FUNDAMENTO. (sem a intenção da rima, é claro!).  Nesse sentido, diversas rodas têm sido uma excepcional aula de liderança, identidade e postura na capoeira. Infelizmente o contrário também acontece: existem rodas por aí em que  a capoeira é sufocada pela falta de visão, comando...uma folclorização da arte da ginga. Encanta-me o tipo de roda onde o conhecimento está aberto a várias possibilidades sem deixar cair a riqueza de seus fundamentos, mas com um olhar para o horizonte onde a capoeira pode absorver maneiras e demandas até então não exploradas pelos capoeiristas. Há diferenças naqueles que jogam conforme a razão quanto àqueles que não mudam e não vão mudar a maneira de enxergar a capoeira: os primeiros são camaleões, jogam conforme o toque e a cantiga; já os segundos jogam de forma equivocada e desconectada com os toques e o andamento da roda. Penso que o bom capoeirista pertence a seu tempo. Este, negocia suas estratégias e encara a vida com  jogo de cintura, pois é também seu meio de vida; àquele da horas vagas não tem compromisso, segue para a roda como para uma "pelada" com os "amigos" nos finais de semana- não está nem aí se chute saiu bom ou não!. Gosto de trabalhar com a capoeira, é um caso de amor com a arte. Se não fosse tão óbvio, não sei como seria uma capoeira que não pudesse se construir, reformar, fazer, refazer. Enfim cuido desse jardim, procuro sentido, sigo o chamado do sim da capoeira. A diferença é o que há nos mestres que comandam a sua roda com o olhar inquiridor, provocativo, desafiador ao mais alto nível de capoeira. O bom mestre sabe fazê-lo, com consistência e muito fundamento.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

20:00 h

Os gestos estão todos lá trancados na memória de cada capoeirista,  atrás de janelas que desnudam o universo da roda de capoeira. Embora essa hora seja semelhante a todas as outras em que houveram uma roda de capoeira , guardo a impressão do nascimento de tudo. O absoluto renasce toda vez que se agacha ao pé do berimbau, e foram tantas que os joelhos falam por si. Mas é deste modo que tudo começa a fazer sentido. Mesmo que permaneça eternamente na caderneta o esboço de um novo capoeira,  percorro a roda olhando para minhas mãos e meus pés e devo dizer que enxergo novas arestas em tudo. Imagino que a capoeira traz dentro de si outras coisas completamente imperceptíveis e que só faz sentido no jogo jogado. Vejam quanto consolo, imprecação, desespero, pacificação, enfim quantas vidas cabem em um jogo-também quantas mortes! Portanto, deixem que a roda de capoeira trafegue por dentro de suas almas, há um cenário de berimbaus e capoeiras que se esparramam e voam sob o chão. A presença na roda significa trafegar em outras estações, em meio à estas existe uma educada maneira de viver.
 Será que podemos dizer para a roda de capoeira que não há nada que nos separe??
Valeu Tica, Chinchila, Sagui, Pigueto e Cigano que somente deu uma passada na roda.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

vozes noturnas

A capoeira, que se enlaça como espaço familiar, permite ler de um modo oblíquo e deslocado figuras que representam a abertura do desejo como princípio de realização e puro devir. Algumas dessas vozes está no " Jeitoso" e " Corcova", amigos de longa data e que nesse momento comemoram a passagem dos seus anos!.. Estes camaradas da roda de capoeira materializam suas vozes nesse inestimável espaço capoeirístico,e, são tantas histórias. O "Jeitoso" (Gustavo) de nossas rodas desbancou a forma acabrunhada de ser pelo ato de  fundar sua própria voz; o "Jeitoso" está desvendando o mundo. Desse modo adverte que seu canto começa a povoar a dicção dos menores. Então poderíamos dizer que o "Corcova" (Bruno)- lembrando que são irmãos gêmeos!- reverte o tempo sobre si mesmo? Sobre o próprio acontecer? Que laço secreto há entre o andar e o deslanchar no ato cotidiano desses dois? A verdade é que linguagem e andar são incipientes nesses grandes amigos. É, a convivência capta o ritmo que emana de vcs dois. Os objetos e momentos nos quais se consuma uma certa "inocência" do Jeitoso e do Corcova são frutos de uma educação exemplar que vem de dentro de casa. São sucedânios de seu jeito de ser e passam a resignificar na leitura, na celebração, na prática e sentimento pela arte da capoeira. Meus camaradas, cada "pernada" que ensinei  foi uma pergunta invisível para a felicidade que rege suas vidas. PARABÉNS PELA PASSAGEM DOS ANOS...Fiquem com Deus!


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

envelheço na cidade-3.7

Todo santo dia sem tardança, alunos de vários pontos da cidade gingam sob mãos e (pés tesos) contrastando com o canto solto do capoeira que bate seus "cambitos" e esmiuça vidas no atendimento de seus serviços de professor de capoeira (essas coisas). É o seu oficio; desune as pernas com ligeireza em simetria com o tanger das mãos debaixo da quentura ou do frio das academias de Curitiba. Sem falta o berimbau dá o seu acorde até altas horas da noite. Bambeia feito equilibrista não só na capoeira, mas na lida diária desviando dos paralelepípedos e "busão" abarrotados. No entanto, ele pensa o quanto é múltiplo e gigantesco o legado dos capoeiras que dão e deram a vida pela arte da capoeira. Para este operário da arte, existe um rigor na sua prática; não aprecia uma obra que não seja o máximo, exige excelência e qualidade nas escolhas. E aprendeu que sobre as coisas não explicadas restam as palavras para dizer o possível. ÉH! Os movimentos da capoeira se sobrepõem uns aos outros, a imagem mental se transforma em imagem escrita e o capoeira transcreve o enigma das imagens em produto da criação. Ele entende mais do que ninguém que o ato da espera torna-se elemento de eficácia e efeitos (alguns pensam que é acomodação!), pois há um "enchimento" na espera. A espera é um estado de vigília constante; assim ele envelhece na cidade.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

seja na idade média, seja na idade mídia!

Apenas inicia um processo em que a capoeira se revela e se traduz de diferentes formas de olhar, estendendo-se para além das ferramentas e recursos avançados e popularizados. Estamos no tempo em que a certeza (cada vez mais absoluta) que tudo que é sólido desmancha no ar. A capoeira a muito tempo rompeu a aura da marginalidade para se mostrar detentora de uma imensa camada de admiradores, que na grande maioria se processa na "metalurgia da pernada". O grande aparato tecnológico acende a nossa gula investigativa para uma "sempre" próxima abordagem para a prática da arte-luta brasileira; há uma evidente ascenção da capoeira, chegam a altos níveis de trocas de experiência e conhecimento com velocidades espantáveis entre os capoeiristas; oferecidas gratuitamente nos oceanos serenos e profundos da web. Trata-se de bons capoeiristas, jovens ou não, influenciando ou trocando influências com outros capoeiristas. Certamente ainda é muito importante lançar um livro. Os e-books, neste sentido, parecem longe da possibilidade de superação da "ácaro-mania". No entanto, no debate acerca do real e do vitual também nos leva refletir sobre o fato de ser menos danoso ao futuro da humanidade possuir um mau blog do que publicar um mau livro ( a natureza agradeceria o bom senso). Logicamente que não quero aqui desenvolver um raciocínio definitvo, mas apenas levantar algumas reflexões sobre o futuro da capoeira. Concordemos com Cazuza: " o tempo não para".

sábado, 22 de janeiro de 2011

ímpeto

Enquanto houver a roda de capoeira  tudo teima em se alterar: os atores que nela se constituem prorrogam-se em alternâncias de sentido e humor;  o de dentro quer sair e o de fora quer entrar. Mas não seria isso "ser hum-mano"?Todo dia raro, todo dia novo: assim alimento-me de seus significados. Há tempos tudo se instala no lugar: uns para os outros, uns mais que os outros. É dali que um músculo chamado vulgarmente de músculo as coisas se entornam. Dali passaram-se a transcrever os barulhos de seus peitos porque era preciso sentarem a cabeça sobre o colo um do outro. D´então passara a não chamar de nome porque virara costela, cotovelo, encosta, riacho. Aquele músculo que chamava todas as almas de colheita e toda fartura chamava-se d´alma. Dali, daquele vulgarmente coração chamado de músculo atravessou todo o revestimento de osso e pele. E tem certos dias, como hoje, preenche a imensidão do horizonte. Nessas alternâncias de entradas e saídas o convite espreita o leitor ausente: E se dissesse: fica...fulgura ainda a vontade de jogar, tocar, cantar? A quantas anda a secura da capoeira? Sei que não trairia esse gosto mesmo se quisesse. Não sobra espaço entre as mãos que se apertam!

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

poros por uma capoeira

"Berimbau já deu chamada, já é hora de lutar! Pois quem luta, luta mesmo...quem não luta fica a olhar"(DP). Atravessaremos longas distâncias, debateremos com verdades apressadas, e, a todo momento um tombo perversamente imprevisto. Este momento é o pão de cada dia. Agora em diante a ordem é rondar em busca de um sol que ponha tudo novamente a funcionar. Os poros ainda estão entupidos e cheio de poeiras, mas anunciam promoções. Não se alcança a compreensão do mundo e das pessoas sem os abismos e o desconcerto das situações. Nem que seja pelos poros da palavra. Nós, loucos e lúcidos por capoeira temos o jeito de simular e dissimular, portanto, temos o direito de cantá-la lírica e cinicamente, afinal não se alcança o instante poético sem uma brecha. Sempre haverá reservas, poéticas ou não, para as próximas temporadas: falas, rostos; tudo-todo é matéria prima para a capoeira. O berimbau dá a mesma sensação de caminho, de fôlego, de libertação. Afirmando sua sobrevivência, escrevo o que seja ele dentro de mim. Sim, a roda está aberta, voltamos a jogar intensamente. Ie! é hora, é hora camará.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

o dom de voar!

E porque não?Na pior das hipóteses, caímos, magoamo-nos por dentro e por fora, e podemos mais uma vez...recomeçar. O desperdício de nossa vida, talentos e oportunidades é o único débito que no final não se poderá saldar: estaremos no arquivo-morto. É uma batalha consigo mesmo, percebendo engodos e superando barreiras, assim podemos saborear e celebrar a vida. Que até nos surpreende quando não se esperava, oferecendo-nos novos caminhos e novos desafios. No mundo das palavras há tantos artifícios quantas são as nossas contradições. Por isso, conviver é tramar, trançar, largar, pegar, perder. E nunca definitivamente entender o que- se fossemos um pouco sábios- deveríamos fazer. Vou me recuperando, terei, quem sabe o mesmo ardor de antigamente, empurrando a alma até inundar novamente o coração. Ainda respira em mim uma infância dourada e quebra-cabeças difícil de armar. Somos grandes cumpridores de tarefas, corremos de um lado para o outro atordoados por mil distrações. Penso que chega o momento de parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. Sair de si mesmo, olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar. Os ganhos e as perdas dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo sua história. Eu sei: "escrever é fácil". Mas não é preciso nada de espetacular, nem desejar nada de excepcional. Para viver de verdade é preciso ser amado, amar e amar-se. Ter esperança. Qualquer esperança. Este que vos escreve anda pelos contornos onde todos os significados são sutis, são mortais. É o que vive, que narra, o que se debate e o que voa.

" a maturidade me permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranquilidade, querer com mais doçura. Às vezes é preciso recolher-se." (Lya Luft)

Que venha 2011! Feliz Ano Novo à todos.