Em meio à solidão eu gostava de ouvir suas histórias, aqueles sempre mesmos causos me preenchiam a alma e, por vezes, ouço a sua voz rouca urdida pelo cigarro traçando sorrisos e zombando dos próprios acontecimentos. Aquele homem alquebrado pela vida, ora esperançoso por dias melhores, ora resignado pelas circunstâncias que a própria vida lhe impôs soube, à sua maneira, driblar dificuldades existenciais.Mas era doloroso para mim observar naquele homem rígido na sua maneira de ser e mãos fortes desaparecendo aos poucos.Meu pai nunca foi de falar de sentimentos, mas eu amava aquele homem.Nos últimos tempos tornara-se um prazer terrível não deixá-lo em paz, gostava de atravessar a cidade somente para abrir o portão de casa e vê-lo sentado em um banco, parecia que me esperava sempre.Eu não sabia que obedecia à velha tradição- a sabedoria daquele que me preparou para a vida.Embora tudo isso que lhes conto seja verídico, seria lamentável que tivesse caído em minhas mãos a tarefa de salvá-lo.Eu era a pessoa menos indicada,infelizmente.Seu MIGUEL faz muita falta, não tenho a sua força interna que ele mantinha comigo e meus irmãos.Mas me inspira muito!a sua voracidade pela vida real tardava em mim e eu...inábil com as sutilezas e desafios da vida.Só muito tempo depois vivendo tais experiências, estava tirando " a moral das histórias".Num sonho, do qual seu sorriso fazia parte, eu transpunha o portão de casa a me refugiar junto a meu pai, e o coração imprudente pôs-se a bater alto demais sob o risco de acordar o mundo a minha volta.Com a boca seca, ali fiquei na frente dele sem coragem de acordar.Ele me olhava manso e curioso.Disfarcei olhando o teto,o chão, as paredes, e mantinha a mão estendida porque não sabia como recolhê-la.
