para um bom leitor

...escrever é sempre um ato de existência.Quando se escreve conta-se o que é...A história é mais real do que qualquer explicação.A realidade do que sou está mais no que escrevo do que nas racionalizações que possa fazer. (Ruth Rocha)

sábado, 26 de fevereiro de 2011

20:00 h

Os gestos estão todos lá trancados na memória de cada capoeirista,  atrás de janelas que desnudam o universo da roda de capoeira. Embora essa hora seja semelhante a todas as outras em que houveram uma roda de capoeira , guardo a impressão do nascimento de tudo. O absoluto renasce toda vez que se agacha ao pé do berimbau, e foram tantas que os joelhos falam por si. Mas é deste modo que tudo começa a fazer sentido. Mesmo que permaneça eternamente na caderneta o esboço de um novo capoeira,  percorro a roda olhando para minhas mãos e meus pés e devo dizer que enxergo novas arestas em tudo. Imagino que a capoeira traz dentro de si outras coisas completamente imperceptíveis e que só faz sentido no jogo jogado. Vejam quanto consolo, imprecação, desespero, pacificação, enfim quantas vidas cabem em um jogo-também quantas mortes! Portanto, deixem que a roda de capoeira trafegue por dentro de suas almas, há um cenário de berimbaus e capoeiras que se esparramam e voam sob o chão. A presença na roda significa trafegar em outras estações, em meio à estas existe uma educada maneira de viver.
 Será que podemos dizer para a roda de capoeira que não há nada que nos separe??
Valeu Tica, Chinchila, Sagui, Pigueto e Cigano que somente deu uma passada na roda.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

vozes noturnas

A capoeira, que se enlaça como espaço familiar, permite ler de um modo oblíquo e deslocado figuras que representam a abertura do desejo como princípio de realização e puro devir. Algumas dessas vozes está no " Jeitoso" e " Corcova", amigos de longa data e que nesse momento comemoram a passagem dos seus anos!.. Estes camaradas da roda de capoeira materializam suas vozes nesse inestimável espaço capoeirístico,e, são tantas histórias. O "Jeitoso" (Gustavo) de nossas rodas desbancou a forma acabrunhada de ser pelo ato de  fundar sua própria voz; o "Jeitoso" está desvendando o mundo. Desse modo adverte que seu canto começa a povoar a dicção dos menores. Então poderíamos dizer que o "Corcova" (Bruno)- lembrando que são irmãos gêmeos!- reverte o tempo sobre si mesmo? Sobre o próprio acontecer? Que laço secreto há entre o andar e o deslanchar no ato cotidiano desses dois? A verdade é que linguagem e andar são incipientes nesses grandes amigos. É, a convivência capta o ritmo que emana de vcs dois. Os objetos e momentos nos quais se consuma uma certa "inocência" do Jeitoso e do Corcova são frutos de uma educação exemplar que vem de dentro de casa. São sucedânios de seu jeito de ser e passam a resignificar na leitura, na celebração, na prática e sentimento pela arte da capoeira. Meus camaradas, cada "pernada" que ensinei  foi uma pergunta invisível para a felicidade que rege suas vidas. PARABÉNS PELA PASSAGEM DOS ANOS...Fiquem com Deus!


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

envelheço na cidade-3.7

Todo santo dia sem tardança, alunos de vários pontos da cidade gingam sob mãos e (pés tesos) contrastando com o canto solto do capoeira que bate seus "cambitos" e esmiuça vidas no atendimento de seus serviços de professor de capoeira (essas coisas). É o seu oficio; desune as pernas com ligeireza em simetria com o tanger das mãos debaixo da quentura ou do frio das academias de Curitiba. Sem falta o berimbau dá o seu acorde até altas horas da noite. Bambeia feito equilibrista não só na capoeira, mas na lida diária desviando dos paralelepípedos e "busão" abarrotados. No entanto, ele pensa o quanto é múltiplo e gigantesco o legado dos capoeiras que dão e deram a vida pela arte da capoeira. Para este operário da arte, existe um rigor na sua prática; não aprecia uma obra que não seja o máximo, exige excelência e qualidade nas escolhas. E aprendeu que sobre as coisas não explicadas restam as palavras para dizer o possível. ÉH! Os movimentos da capoeira se sobrepõem uns aos outros, a imagem mental se transforma em imagem escrita e o capoeira transcreve o enigma das imagens em produto da criação. Ele entende mais do que ninguém que o ato da espera torna-se elemento de eficácia e efeitos (alguns pensam que é acomodação!), pois há um "enchimento" na espera. A espera é um estado de vigília constante; assim ele envelhece na cidade.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

seja na idade média, seja na idade mídia!

Apenas inicia um processo em que a capoeira se revela e se traduz de diferentes formas de olhar, estendendo-se para além das ferramentas e recursos avançados e popularizados. Estamos no tempo em que a certeza (cada vez mais absoluta) que tudo que é sólido desmancha no ar. A capoeira a muito tempo rompeu a aura da marginalidade para se mostrar detentora de uma imensa camada de admiradores, que na grande maioria se processa na "metalurgia da pernada". O grande aparato tecnológico acende a nossa gula investigativa para uma "sempre" próxima abordagem para a prática da arte-luta brasileira; há uma evidente ascenção da capoeira, chegam a altos níveis de trocas de experiência e conhecimento com velocidades espantáveis entre os capoeiristas; oferecidas gratuitamente nos oceanos serenos e profundos da web. Trata-se de bons capoeiristas, jovens ou não, influenciando ou trocando influências com outros capoeiristas. Certamente ainda é muito importante lançar um livro. Os e-books, neste sentido, parecem longe da possibilidade de superação da "ácaro-mania". No entanto, no debate acerca do real e do vitual também nos leva refletir sobre o fato de ser menos danoso ao futuro da humanidade possuir um mau blog do que publicar um mau livro ( a natureza agradeceria o bom senso). Logicamente que não quero aqui desenvolver um raciocínio definitvo, mas apenas levantar algumas reflexões sobre o futuro da capoeira. Concordemos com Cazuza: " o tempo não para".