para um bom leitor

...escrever é sempre um ato de existência.Quando se escreve conta-se o que é...A história é mais real do que qualquer explicação.A realidade do que sou está mais no que escrevo do que nas racionalizações que possa fazer. (Ruth Rocha)

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Virtude feminina


Quando elas gracejam na arte do jogar capoeira e tocar berimbau nos desconcertam. De modo que seus gestos e atitudes na roda são desprovidos de ódio, de dureza, de insensibilidade. Estas ( as nossas alunas), se destacam pela sua doçura, esta virtude feminina e que alguns poderão contrapor em dizer que virtude não tem sexo (é verdade!),mas isso não dispensa de o ter, por isso que ela agrada, sobretudo, nos homens. A verdade é que nenhum homem escreverá, nem amará, nem jogará capoeira como elas. E que desastre se, " todo mundo se alinhasse aos valores masculinos" ( Todorov),seria o triunfo da guerra, ainda que fosse justa, e das idéias, ainda que fossem generosas. Faltaria o essencial, que é o amor. Mas voltemos à doçura. A coragem sem violência, a força sem dureza, um amor sem cólera é o que ela tem de feminina. A doçura se recusa a produzir ou aumentar o sofrimento do outro; é a que mais se parece com o amor. O homem só é salvo do pior, quase sempre, pela parte de feminilidade que traz em si, desta forma a doçura o acompanha. Vejam os brutamontes que não a tem. Não sei se podemos dizer o mesmo das mulheres, se elas precisam do mesmo modo de uma parte de masculinidade. " A mulher, mais perto do humano do que o homem...", dizia Rilke.
Quando o homem deixa de ser " macho pretensioso e impaciente" e não se deixa enganar pelos valores da virilidade, a doçura o acolhe. Ela, ( a capoeirista) doce mulher, mãe,menina submete-se ao real, à vida , ao devir, pois a doçura é sua acolhida, se alimenta dela e é isso que torna a humanidade mais humana, graças à qual-e só a ela! a roda de capoeira é harmoniosa e bonita: Tica, Drika, Risadinha, Chinchila, Deisi, Delicada, Cecília, Ana, Amanda e todas as mulheres da capoeira tornam a roda da vida cheia de graça e doçura.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Pois é...

Que sorte a nossa quando podemos superar e depois rir de situações embaraçosas e difíceis do nosso cotidiano capoeirístico. Às vezes a dor física que, num momento de distração pode comprometer para sempre os movimentos da capoeira . De outra forma, são as dores da alma que nos tira o chão e ficamos sem rumo...por um bom tempo! Somos extremamente limitados para entender estas situações. E por um momento de distração, abrimos a janela do acaso e logo a rasteira da capoeira ou  da vida (que é mais dolorida) nos tira o terreno que até então era tão seguro. É o sinal para recuarmos e fazer uma avaliação, é momento para refazer, e até mesmo parar. Sim, brincamos muito com a vida sem darmos conta do limite existente, então é preciso estar atento aos sinais e respeitar o aviso. Sabemos que existência também ensinou ao homem encontrar meios de resistir dores ( do corpo e da alma), seja na experiência adquirida, seja com a ajuda das próprias pessoas com suas especialidades. Ao homem ficou a inteligência para encontrar meios de resistência e superação melhores hoje em dia. A capoeira também está por aí para fazer da vida um prazer, e mesmo que os movimentos físicos e as relações que nela ( a capoeira) extrapolam é necessário parar, reavaliar, refletir sem esperar pelo aviso. Pois é...precisamos de um puxão de orelha de vez em quando.

domingo, 18 de julho de 2010

um eco de alegria à alegria sentida

Segundo André Comte-Sponville, a gratidão é a mais agradável das virtudes,não é, no entanto, a mais fácil. A gratidão é um mistério, não pelo prazer que temos com ela, mas com o obstáculo que com ela vencemos. Quantas vezes agradecemos sem mesmo ter consciência do que isso significa, ou, agradecer por mera formalidade ou ato físico. Em sentirmos bem quando colocamos generosidade nas atitudes é superarmos o egoísmo, "...a gratidão nada tem a dar, além do prazer de ter recebido". O egoísmo é incapaz disso, pois só conhece suas próprias satisfações, pelas quais zela como um avaro por seu cofre. A ingratidão não é a incapacidade de receber, mas incapacidade de retribuir. De outra forma, a capoeira é a generosidade mais profunda: está sempre contribuindo, somando, incrementando sem pedir algo em troca. E o seu protagonista ( o capoeira), inspira a virtude da gratidão através de seu canto e dança. Ele encarna a alegria num sorriso ou passo da ginga em reconhecimento por tudo, sim, por gratidão a tudo que tem construído até esse momento. Os capoeiristas absorvem alegria como outros absorvem a luz, é neste estado sublime que as perdas e ganhos são necessariamente somados à construção humana. E essa alegria, por mim sentida, interior ou reflexiva tem uma causa externa, que é o universo de Deus, da natureza, da capoeira, das pessoas. E sou grato por isso. Entretanto, não confundamos gratidão com retribuição de cortesias. Como quer que seja, o amor quer bem ao amado, pelo menos se tem amor à gratidão. E em todos os momentos vividos na capoeira existe uma gratidão, uma alegria da memória, esse amor do passado- não o sofrimento do que não é mais, nem o pesar pelo que não foi, mas a lembrança alegre do que foi. A gratidão é o segredo da amizade, não pelo sentimento de uma dívida, pois nada se deve aos amigos, mas por superabundância de alegria em comum. Aos mestres e amigos que já se foram e àqueles que estão por perto, minha eterna gratidão pela ALEGRIA SENTIDA!

domingo, 11 de julho de 2010

Sobre jequitibás e eucaliptos

Dentro da hierarquia do Grupo Kauande existe a  corda-roxa, que dá o significado de PROFESSOR de capoeira nesta instituição. Pode-se entender essa condição de várias formas: direcionar,organizar ou guiar para chegar a um fim, não sei qual! talvez dar um reconhecimento ao aluno que tanto defendeu a arte, alguma espécie de motivação. E na pior das hipóteses, um adestramento de pessoas que estão inseridos na casa,cada um no seu devido lugar não mais que uma função.  Rubem Alves nos dá uma boa reflexão para analisar tal questão: a relação entre o que é ser professor, e o que é ser educador.
Façamos a analogia sobre eucaliptos e jequitibás: os eucaliptos, essa raça sem vergonha que cresce depressa para substituir as velhas árvores seculares que ninguém viu crescer nem plantar. Para alguns gostos , fica até mais bonito: todos enfileirados, em posição de sentido, preparados para o corte. E para o lucro. Estes são professores que habitam um mundo diferente: são entidades descartáveis, são funções; é uma entidade gerenciada, administrada, está nas mãos dos interesses do sistema.
 Nesta análise podemos imaginar o quanto existe de limitação quando ficamos amarrados a uma espécie de corda, graduação ou rótulo que poucos entendem: é uma sigla para fins institucionais. É PRECISO IR ALÉM, a graduação é uma espécie de mapa.No entanto existe árvores que é diferente de todos, que sentiu coisas que ninguém sentiu, ou seja, existem capoeiristas que viu e sentiu o que ninguém jamais pode imaginar. E os educadores são como as velhas árvores: possuem uma face, um nome, uma "estória" a ser contada.
 Para estes, o seu habitat é a relação com seus alunos, que se estabelece a dois alimentando esperanças. O ritmo do educador não segue o ritmo do mundo da instituição; a sua interioridade faz a diferença.É uma vocação, jamais imposição ou função!! Mas o mundo mudou, as florestas foram abatidas. Em seu lugar, eucaliptos. E algumas pessoas têm a ilusão de poderem ser educadores e não sabem que o controle passou das mãos das pessoas para a lógica das instituições (grupos). Para Rubem Alves à formação do educador é necessário reaprender a falar, a palavra é seu instrumento, mesmo quando seu trabalho inclui os pés. Todos seus gestos são acompanhados pela palavra.
Deixemos o alerta aos futuros capoeiristas para que não fiquem em função de rótulos, siglas onde a pessoa passou a ser definida pela produção: sua identidade é engolida pela função de professor, reduzindo-se a funções amarradas dominado por grupos, empresas e pelo Estado!Há um ser humano por trás das amarras da corda. Aos capoeiristas deseja-se que despertem sim para uma vocação: a de educador sem dúvida exige fé e coragem. Este, para o autor "é fundador de mundos, mediador de esperanças, pastor de projetos" e para nós este é um jequitibá.

# Conversas com quem gosta de ensinar-(Rubem Alves)

terça-feira, 6 de julho de 2010

BESOURO...é zum,zum, zum

"...capoeira é coisa de se aprender de cada vez um pouco, até o fim de nossos dias, é arte de bicho, de planta, de pedra , sim. Mas não aprendi nada disso com luneta, régua, mapa, não. Foi tudo no respeito, na reverência, na cadência, com tento apenas no que fosse pé pisando certo nos errantes do mundo. Capoeira é a vadiação , a roda. É ser o bicho, um besouro, um camaleão que mamou na mula e tem pé pesado, ginga mole, dolência, e a preguiça a que qualquer um tem direito. Ora se." ( FEIJOADA NO PARAÍSO- Marco Carvalho)

QUE TAL LER?!

when i look at the world

Quando bem vivida, a existência mostra seu momento mágico onde pessoas, coisas, olhares e natureza tem um sentido fora do comum. E como sempre assisto a tudo e percebo em volta o estado de completude em que as pessoas felizes se encontram. Muitas vezes me calo e fico só observando que os anos foram me ensinando que o silêncio na maioria das vezes é " a ensurdecedora voz da verdade", e quantas verdades até então não eram compreendidas. Capoeirísticamente falando, devo este estado de espírito às pessoas que passam, convivem ou passaram por mim deixando uma efervescência de sentimentos de todo tipo, e assim vou conduzindo a vida. Viver constante em meio a este universo é driblar o cansaço e saber que, quando se pensa saber tudo, ainda não se sabe nada. O trabalho continua, sob outros olhares e nuances, com outras pessoas em outros lugares. Nesta estrada aprendi que aquele que vive, domina, prevalece, é constante ator dos atos vividos. As pessoas são cheias de imperfeições, mas da mesma forma são fascinantes, basta enxergar além do que se vê: a convivência é a técnica. E  tudo isso que vos digo vêm de uma força maior que move as pessoas para perto de mim, é um Deus que tem todos os nomes possíveis. Talvez seja um Deus que embriaga, que é cheiroso e inebriante; talvez um Deus que deixa marcas. Mas a verdade é que tenho fome e sede...de Deus!!  ESTE QUE ME FAZ OLHAR PARA O MUNDO.
Obrigado ao Cigano e alunos queridos pelos impagáveis momentos!!