para um bom leitor

...escrever é sempre um ato de existência.Quando se escreve conta-se o que é...A história é mais real do que qualquer explicação.A realidade do que sou está mais no que escrevo do que nas racionalizações que possa fazer. (Ruth Rocha)

sábado, 22 de janeiro de 2011

ímpeto

Enquanto houver a roda de capoeira  tudo teima em se alterar: os atores que nela se constituem prorrogam-se em alternâncias de sentido e humor;  o de dentro quer sair e o de fora quer entrar. Mas não seria isso "ser hum-mano"?Todo dia raro, todo dia novo: assim alimento-me de seus significados. Há tempos tudo se instala no lugar: uns para os outros, uns mais que os outros. É dali que um músculo chamado vulgarmente de músculo as coisas se entornam. Dali passaram-se a transcrever os barulhos de seus peitos porque era preciso sentarem a cabeça sobre o colo um do outro. D´então passara a não chamar de nome porque virara costela, cotovelo, encosta, riacho. Aquele músculo que chamava todas as almas de colheita e toda fartura chamava-se d´alma. Dali, daquele vulgarmente coração chamado de músculo atravessou todo o revestimento de osso e pele. E tem certos dias, como hoje, preenche a imensidão do horizonte. Nessas alternâncias de entradas e saídas o convite espreita o leitor ausente: E se dissesse: fica...fulgura ainda a vontade de jogar, tocar, cantar? A quantas anda a secura da capoeira? Sei que não trairia esse gosto mesmo se quisesse. Não sobra espaço entre as mãos que se apertam!

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

poros por uma capoeira

"Berimbau já deu chamada, já é hora de lutar! Pois quem luta, luta mesmo...quem não luta fica a olhar"(DP). Atravessaremos longas distâncias, debateremos com verdades apressadas, e, a todo momento um tombo perversamente imprevisto. Este momento é o pão de cada dia. Agora em diante a ordem é rondar em busca de um sol que ponha tudo novamente a funcionar. Os poros ainda estão entupidos e cheio de poeiras, mas anunciam promoções. Não se alcança a compreensão do mundo e das pessoas sem os abismos e o desconcerto das situações. Nem que seja pelos poros da palavra. Nós, loucos e lúcidos por capoeira temos o jeito de simular e dissimular, portanto, temos o direito de cantá-la lírica e cinicamente, afinal não se alcança o instante poético sem uma brecha. Sempre haverá reservas, poéticas ou não, para as próximas temporadas: falas, rostos; tudo-todo é matéria prima para a capoeira. O berimbau dá a mesma sensação de caminho, de fôlego, de libertação. Afirmando sua sobrevivência, escrevo o que seja ele dentro de mim. Sim, a roda está aberta, voltamos a jogar intensamente. Ie! é hora, é hora camará.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

o dom de voar!

E porque não?Na pior das hipóteses, caímos, magoamo-nos por dentro e por fora, e podemos mais uma vez...recomeçar. O desperdício de nossa vida, talentos e oportunidades é o único débito que no final não se poderá saldar: estaremos no arquivo-morto. É uma batalha consigo mesmo, percebendo engodos e superando barreiras, assim podemos saborear e celebrar a vida. Que até nos surpreende quando não se esperava, oferecendo-nos novos caminhos e novos desafios. No mundo das palavras há tantos artifícios quantas são as nossas contradições. Por isso, conviver é tramar, trançar, largar, pegar, perder. E nunca definitivamente entender o que- se fossemos um pouco sábios- deveríamos fazer. Vou me recuperando, terei, quem sabe o mesmo ardor de antigamente, empurrando a alma até inundar novamente o coração. Ainda respira em mim uma infância dourada e quebra-cabeças difícil de armar. Somos grandes cumpridores de tarefas, corremos de um lado para o outro atordoados por mil distrações. Penso que chega o momento de parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. Sair de si mesmo, olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar. Os ganhos e as perdas dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo sua história. Eu sei: "escrever é fácil". Mas não é preciso nada de espetacular, nem desejar nada de excepcional. Para viver de verdade é preciso ser amado, amar e amar-se. Ter esperança. Qualquer esperança. Este que vos escreve anda pelos contornos onde todos os significados são sutis, são mortais. É o que vive, que narra, o que se debate e o que voa.

" a maturidade me permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranquilidade, querer com mais doçura. Às vezes é preciso recolher-se." (Lya Luft)

Que venha 2011! Feliz Ano Novo à todos.